sábado, 30 de julho de 2011

HOMOFOBIA É ESTUPIDEZ DO HOMEM


(Katy Bailey)




Fazia muito frio e o Mike não conseguia dormir. Agasalhei-me e fui lá levar-lhe algo quente, para minorar a insônia gelada. Por isso, o papo foi breve.

- Queria te dizer uma coisa... – começou o Mike.

Estranhei, porque geralmente sou eu quem o provoca.

- Diga. Mas seja breve, que estou congelando.
- Estou aqui matutando sobre um problema idiota que tenho ouvido: a agressão a homossexuais...
- E o que vocês, macacos, pensam sobre isso?
- Bem, homossexualismo existe entre muitas espécies animais...
- E daí?
- E daí que só entre os homens, ditos “sapiens” (e ele escandiu bem a palavra, para ressaltar a ironia) é que isso é considerado estranho...
- E não é estranho? – provoquei, embora concordasse plenamente com ele.
- Não, não é. Tudo o que acontece entra para o rol das coisas comuns.
- Mesmo o inusitado?
- Sim, mesmo o inusitado. Mas, não mude de assunto. Eu fiquei abestalhado com uns caras aí que agrediram um homem que se abraçava ao próprio filho, pensando que ele era homossexual...
- E cortaram-lhe uma orelha...
- Isso é absolutamente impensável. Uma estupidez sem tamanho. Vocês, homens, estão perdendo a medida das coisas. Está difícil considerar a humanidade como “evoluída”. Os atos bárbaros estão cada vez mais comuns, o que nos remete para a uma situação de normalidade o fato de aceitarem a homofobia, os massacres, os assassínios e todas as demais agressões que vocês cometem uns contra os outros, por motivos cada vez mais estúpidos...
- Olha, Mike, eu até gostaria de aprofundar esse assunto com você, mas o frio...
- Tem razão, está muito frio, tão frio que anda congelando o pensamento do “homo sapiens”. Vamos tentar dormir. Se for possível, diante de tantos atos bárbaros...
- Você está falando de quê?
- Daquele cretino lá da Noruega... Mas deixa pra lá... Boa noite.

Alimentado, Mike foi para seu abrigo tentar dormir. Eu perdi definitivamente o sono, nesta noite fria, muito fria...

domingo, 16 de janeiro de 2011

O PERDÃO A DEUS

(Bosh - reis magos)




Noite chuvosa. Quando a tempestade amainou, saí para ver o brilho das folhas sob o aguaceiro, uma imagem realmente instigante. Encontrei o Mike com olho arregalado, degustando um pedaço de mamão que ele, com certeza, escondera para comer mais tarde, como sempre faz.

E a chuva, então, foi o assunto, claro.

- Você viu o estrago da chuva no Rio, Mike? – cutuquei-o.
- Mais ouvi do que vi, mas isso é normal: você sabe, verão, aquecimento global, la Niña, desmatamento, ocupações irregulares, ou seja, tudo o que todo mundo sabe. Então, era só uma questão de tempo, sem trocadilho...
- Você não ficou impressionado?
- Com o estrago? Não, não fiquei. A natureza é assim. O homem é que não sabe conviver com ela.
- Mas, e as vítimas?... Já são mais de seiscentas...
- Os que morreram, morreram... Preocupam-me os que sobreviveram: se forem reconstituir tudo do jeito que era antes, cometerão mais uma burrice.
- Puxa, Mike, como você é insensível! – e provoquei: - deus castiga!
- Sim, você disse bem: deus castiga, mas todos lhe perdoam imediatamente...
- Como assim? Não entendi.

O Mike arreganhou os dentes, que é o jeito dele de sorrir ou de rir mesmo, quando quer zombar de alguém. Insisti que não entendera, que ele me explicasse esse negócio de perdão. Mike olhou para o tempo, para o céu de chumbo lá em cima, balbuciou algo meio inteligível sobre trovões, que ele detesta, sentou-se calmamente, olhou para mim e se dispôs a falar. Eis o que ele disse:

- Olha, é assim: vocês humanos deístas – está bem, está bem, retiro o “vocês”, para excluí-lo disso, já sei que você é ateu – então, os crentes, os deístas, estão sempre a pedir perdão a deus por seus pecados, não é?

Assenti com a cabeça e Mike prosseguiu:

- Pois, bem, os humanos que crêem em deus acreditam que ele, deus, tudo pode, e que é um deus benevolente, que perdoa os pecados de quem se arrepende. Rezam, fazem promessas, cumprem rituais com o objetivo principal de agradar a divindade e ganhar um lugarzinho no céu. Muitos chegam ao cúmulo de se matar ou cometer crimes horrendos em prol de uma causa deísta, como os terroristas muçulmanos o fazem hoje, e como muitas outras seitas já fizeram no passado. Tudo para agradar a deus e obter o seu perdão. Não é assim?
- Claro, sem dúvida...
- Então, vamos analisar o que deus faz com os homens, já que, segundo os deístas, nada acontece sem a vontade dele: as pessoas matam e se matam, e isso é vontade de deus; as pessoas morrem em acidentes horríveis, no trânsito, nas construções civis, nas minas, em todos os lugares, a todo momento, e isso é vontade de deus; as pessoas ficam mutiladas, sofrem os piores sofrimentos (desculpe a redundância) físicos, mentais e psicológicos, e isso é vontade deus; as pessoas perdem seus bens, seus parentes e amigos em dezenas, centenas de acidentes, como terremotos, enchentes, erupções vulcânicas, maremotos etc., e tudo isso é a vontade de deus...
- Onde você quer chegar, Mike?
- Raciocine comigo: todos os sofrimentos humanos são a manifestação explícita e soberana da vontade de deus, já que ele tudo vê, tudo pode. Porque deus não mitiga esses sofrimentos? Que deus cruel é esse que mata, mutila, destrói, provoca tantas dores, tanto desespero?
- Realmente, isso é muita crueldade de deus... – comentei ironicamente.
- E tem mais: o cidadão perde toda a família – pai, mãe, mulher, filhos, primos, tios – e sobrevive por um acaso do destino, no meio da destruição, porque ficou, por exemplo debaixo de uma viga, durante um soterramento, e então o que ele faz, quando lhe perguntam como sobreviveu? Ele diz que foi graças a deus, que foi a mão de deus que o protegeu! E por que a mesma mão que o protegeu, também não salvou as demais pessoas de sua família? O que esse cara tem de especial em relação às outras pessoas? Por que foi ele o escolhido? E o que ele fez para ser escolhido de deus e salvar-se?
- É verdade, Mike, as pessoas falam mesmo essas coisas, de milagres... e muita gente acredita!
- Então, isso é o eu chamo de perdão. Ou seja: por mais que deus faça, os homens sempre lhe perdoam todas as maldades... Portanto, não é deus que perdoa aos homens, mas os homens é que vivem perdoando a deus...
- Puxa, Mike: nunca havia pensado nisso... você é mesmo muito perspicaz...
- E cansado, estou ficando velho, não ando mais tendo muita força para enfrentar chuvas e trovões toda noite... vou dormir...

E Mike virou-me as costas e foi para seus aposentos, dormir talvez o único sono dos realmente justos neste mundo, o sono de quem nunca em sua vida cometeu qualquer deslize que precisasse ser perdoado. Por isso, também ele não perdoa à divindade e critica os homens que o fazem.

Coisas do Mike, enfim, pensei. E também fui tentar dormir, que a chuva voltava a apertar.