terça-feira, 21 de dezembro de 2010

ECLIPSE DA LUA, FIM DE GOVERNO





Ante a notícia do eclipse lunar, saí para conversar com o Mike. Não estava ele muito interessado na Lua, mas sim no final do governo Lula.


Mike gosta do Lula, mas só gosta. Não é fanático. Tampouco grande admirador, como eu. Apenas gosta.

Cutuquei-o:

- E aí, gostou da popularidade do Lula, no final do governo?

O macaquinho não se fez de rogado:

- Lamento mais a saída, ou melhor, a não permanência de um cara polêmico e, talvez, o mais interessante de todo o governo do Lula...

- A quem você se refere?

- Ao Paulo Vannuchi.

- Paulo Vannuchi... Ah, sim, o Secretário de quê, mesmo?

- Direitos humanos...

- Isso, Secretaria Especial de Direitos Humanos... Não entendi por que você cita esse ministro em especial, Mike.

- Você, como ateu, devia ter prestado mais atenção a ele – senti a ironia e esperei o Mike terminar de comer um pedaço de banana. – É um dos melhores amigos do presidente. Mas, acima de tudo, foi um cara que fez declarações importantes – que a imprensa chama de polêmicas – como a de que só é possível aprofundar o processo democrático, se houver total abertura dos porões da ditadura, com a descoberta dos corpos dos mortos do regime militar e devolvê-los às famílias. Você sabe que nós, macacos, não damos importância a essa questão de liturgia da morte, a luto, mas, para o homem, é importante completar o ciclo da vida e aceitar a morte através do enterro de amigos, parentes etc. É uma forma de exorcizar o sofrimento...

- É, você tem razão, Mike: concordo plenamente com você e com o secretário – as Forças Armadas não deviam bloquear o acesso à verdade...

- Você usou exatamente os mesmos termos que ele, ao se referir ao caso: os exageros havidos devem ser individualizados, para que não manchem toda a instituição. As Forças Armadas, com essa teimosia em não abrir os arquivos, estão carregando um ônus inútil e estúpido: pagam todos o erro de alguns.

- É verdade... Mas você falou alguma coisa relacionada a ateísmo...

- Ah, sim: foi o homem, neste governo, que teve a lucidez de propor a eliminação de símbolos religiosos de repartições públicas, com o que também concordo plenamente e acho que você também.

Fiz um gesto de assentimento e Mike prosseguiu:

- E mais: afirmou peremptoriamente que as pessoas podem ter sua fé, mas que isso não implica influência nas questões públicas ou de Estado. Trouxe à tona o debate sobre o aborto, por exemplo, que é uma questão de política pública e não de fé. Esse debate não pôde ser aprofundado, porque a campanha política demonizou o assunto, com a interferência de radicais cristãos, que são a pior canalha da terra (exagerou um pouco, o macaquinho, mas tudo bem: ele pode!)... Por isso – prosseguiu o Mike – eu acho que o Vannuchi foi “o cara” do governo Lula – competente, inteligente, um grande pensador, na minha opinião...

E mais não disse o macaquinho, já sonolento pela sombra que o eclipse provocava ao redor, tornando a quente noite de verão um convite para a cama e não para outras considerações filosóficas e políticas.

Fomos dormir, eu e o Mike. Mas que o ministro Paulo Vannuchi é “o cara”, disso não tive mais dúvidas.