sexta-feira, 19 de novembro de 2010

CONSIDERAÇÕES SOBRE A VELHICE

(Deborah Poynton)




Saí o mais silenciosamente possível. Não adiantou. Lá me esperavam os olhinhos redondos e atentos do Mike: estava sem sono e percebeu meus movimentos, desde que chegara.

- Insônia de velho? – provoquei.
- O tempo é implacável, meu caro – disse o macaquinho, e acrescentou: - estou aqui matutando que meu tempo pode estar chegando ao fim.
- Todos morremos, disse eu, tentando amenizar o clima de tristeza que se apoderou de mim, ao imaginar que, realmente, o meu amiguinho de tantos e tantos anos podia, sim, estar caminhando para o fim da vida.
- Mas só o homem tem medo da morte – retrucou ele.
- Você não teme a morte?
- Não. Não há por que temer algo sobre o qual nós, os animais, nunca nos detemos a pensar.
- Mas você estava pensando nisso, conforme me declarou.
- Não exatamente. Não estava pensando na morte propriamente, mas no fato de que estou envelhecendo...
- Também isso é fato da natureza, é normal, não é, Mike?
- Para os humanos, envelhecer significa muito mais coisas do que apenas ter limitações físicas...
- O que você quer dizer?

Mike arreganhou os dentes e mostrou-me sua boca. Sim, ele está envelhecendo: tem perdido alguns dentes. E isso me preocupa. Acho que ele percebeu minha preocupação, porque em seguida disparou:

- Estou perdendo alguns dentes. E daqui para a frente, pode ser que minhas condições físicas se deteriorem. Também minha visão já não está lá essas coisas... Enfim, como vocês, humanos, nós também detectamos sinais de decadência física e nos preocupamos... mas é só isso e mais nada o que consome nossos pensamentos. Não temos nenhuma relação metafísica com a ideia de morte. Porque morte, para nós, é apenas o curso da natureza.
- Mas você disse que nós, humanos...
- Sim, vocês se preocupam demasiado com a morte. E sofrem com isso. Para vocês, envelhecer não é apenas contar mazelas físicas, como dor nas costas, perda de visão e outras “cositas más”... Vocês estabeleceram com a morte uma relação doentia, de temor e esperança... E então, o ato de envelhecer se transforma em sofrimento maior, quando começam a olhar para trás e contar as pessoas queridas que já se foram... Percebi seu sofrimento, quando morreu seu amigo de infância. A inevitabilidade da perda de amigos e parentes, enquanto se sobrevive a eles, não parece fazer parte da ideia de vida e de envelhecimento de vocês. E por isso, sofrem. Sofrem mais com esse fato, do que com as mazelas da velhice... Nós, animais, não: a morte dos outros, assim como a nossa, não tem nenhum significado: são apenas circunstâncias da vida. Sentimos, claro, mas não ficamos a lamentar a perda com funerais e lembranças que permanecem, às vezes, para o resto da vida...
- Você tem razão, Mike: para nós, envelhecer é contar amigos e parentes que se foram. E isso dói muito.
- Então, meu velho, nada há a fazer: sei que vou morrer, e sei também que isso vai fazer você sofrer, não é?
- Sem dúvida.
- Então, curta esses nossos papos, mantenha a amizade que nos une... Porque não há nada, absolutamente nada que se possa fazer. Boa noite.

E lá se foi o macaquinho para sua casa. E eu fiquei um pouco mais triste, um pouco mais velho, um pouco mais... Não, chega! Não quero ficar nem mais um pouco seja lá o que for. Já bastam todas as perdas que tive. Também vou dormir.

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