terça-feira, 19 de outubro de 2010

VIDA E MORTE

(Vita - the expectation)





Um tema batia cá dentro na minha cabeça: a ideia da morte. Não a minha ou a de qualquer outro ser humano, mas a morte como espécie de “entidade” que todos tememos e da qual ninguém escapa. Como o Mike lida com essa ideia? Fui perguntar-lhe.

- Mike, você tem medo da morte?
- O quê? Não entendi sua pergunta – e o macaquinho arregalou os olhinhos redondos para mim.
- Morte, Mike, você pensa na morte?

Ele coçou a cabeça, andou um pouco de um lado para o outro, catou um pedaço de banana esquecido num canto, subiu ao cano que ficava bem diante de minha cabeça, tornou a se coçar e titubeou um pouco, antes de responder. Era a primeira vez, acho, que via o Mike assim, sem saber muito bem o que dizer. Mas, começou:

- Olha, eu me assusto às vezes com os estampidos que ouço de madrugada. Tenho medo de sombras que passam por trás de mim ou do grito do gavião que, de vez em quando, frequenta essas redondezas. Tive um treco, uma vez, você se lembra, fiquei uns tempos meio grogue, meio esquecido...

O Mike estava se referindo ao derrame que ele sofreu uns anos atrás, do qual já falei aqui. Enquanto isso, me enrolava num discurso meio estranho, não muito comum. Mas, continuei ouvindo, atento:

- ... acho que quase morri, não? – Acenei com a cabeça. – Foi o que mais perto cheguei àquilo que vocês, humanos, chamam de morte.
- Não entendi, você não tem certeza de que esteve para morrer?
- Aí é que está o problema: não sei exatamente o que é morte, o que é morrer. Nós, animais, e mesmo os grandes símios, os chamados primatas não humanos...
- Como assim, primatas não humanos? – interrompi, intrigado com essa expressão.
- Primatas são todos os grandes símios, você não sabe? Os orangotangos, os bonobos, os gorilas, o chimpanzés... e o homem, claro. Não são macacos, como nós, menores e um pouco mais distantes no parentesco com vocês, entendeu?
- Não muito, mas isso não importa agora. Eu quero saber...
- Sim, eu sei, você quer saber o que eu penso dessa coisa com que vocês, humanos, vivem se preocupando o tempo todo, a tal morte.

Acenei com a cabeça, já um pouco impaciente. Mas, com o Mike é assim: às vezes, ele desanda a falar e, às vezes, ele se enrola um pouco.

- Bem... vamos tentar entender o que é isso, morte. Para nós, animais, não existe o conceito morte, não nos preocupamos com ela, porque o tempo todo nós nos preocupamos em viver, ou sobreviver, continuar comendo, procriando, caçando, fazendo o que fazemos no dia a dia. Temos medo, sim, de sermos atacados, de virarmos comida de outros mais fortes, mas esse medo é atávico, ou seja, é parte de nossa natureza, é só um jeito de estarmos sempre alerta, de não sermos surpreendidos, não uma preocupação filosófica. Na verdade, não temos o conceito do que vocês chamam de “morte”, porque isso é tão... como direi... tão absolutamente parte da vida que, se ficássemos pensando nisso, não viveríamos, ou seja, teríamos, acho, extraída de nossas vidas um pedaço.
- Então, vocês não se preocupam com a morte...
- Não, absolutamente não. Não existe essa preocupação no reino animal. Existe, é claro, o medo, como já lhe falei, mas não há o medo da morte, no sentido de que vocês, humanos, lhe atribuem, como se fosse algo com que devêssemos nos preocupar. Há simplesmente a vida e somente a vida. Porque, se fôssemos ficar pensando em morte... por exemplo, o leão não caçaria e a corça só viveria para escapar do leão e, então, não haveria a natureza. É claro que a corça não quer virar comida, mas não porque ela tema morrer, mas porque ela quer continuar a viver...
- Querer continuar a viver não é temer a morte?
- Não. A coisa é complicada de explicar, mas é mais ou menos assim: viver é o que importa, morrer é só morrer e ficar pensando na morte não é viver.

Confesso que fiquei realmente confuso com as palavras do Mike. Tentei arrancar-lhe mais alguma coisa, mas ele dispensou o tema da forma mais simples e sincera que ele achou sem que fosse mal educado:

- Olha, na verdade, não é um assunto sobre o qual se deva falar, porque não tem nenhum interesse. Não entendo por que vocês, seres humanos, gastam tanta saliva, tanto papel, tanto trololó com isso. Vão viver suas vidas e esqueçam a morte, assim viverão melhor.

Acabou de comer o pedaço de banana, deu uma coçadinha nas costas e foi dormir. Fiquei ali, contemplando a noite, as estrelas, como sempre faço depois desses papos estranhos com o Mike. Porque, como já notaram os que visitam essas páginas, nossas conversas são sempre à noite, quando o silêncio da cidade é quebrado de longe em longe por alguns estampidos ou freadas de carro, ruídos distantes que o Mike odeia, porque o deixam, com certeza, com aquele medo atávico de que ele falou. Enfim, melhor deixar pra lá essa história de morte, de ficar pensando na morte. E simplesmente viver a vida. Porque isso é o mais simples que se pode fazer.

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