sexta-feira, 29 de outubro de 2010

UM LONGO E FURIBUNDO DISCURSO SOBRE POLÍTICA

(Odilon Redon - the fall of Icarus)





O macaquinho mal humorado revela-se, numa noite de inverno seca e quente. O inverno de 2010 castigou nosso sistema respiratório e aumentou a poluição da grande cidade. Mike também deve ter sentido os efeitos do clima, mas não se queixa sobre isso. Apenas observa e comenta. Nessa noite, no entanto, não era o clima a preocupação do Mike, mas a política, no seu sentido mais amplo. Assim que me aproximei, para levar-lhe uma fruta, perguntou-me como estavam as pequisas de opinião sobre as eleições. Respondi-lhe que o cenário conduzia para uma vitória em primeiro turno da candidata do Lula.

Mike não é exatamente um petista ou admirador do Lula, como eu. Mas noto que tem alguma simpatia pelo Presidente, por aquilo que ele realizou. Não gosta de política partidária, confessou-me uma vez.

- A direita tem feito algumas acusações de autoritarismo, por parte do Lula – disse-lhe eu.
- Isso é estupidez. Essa gente não sabe o que é autoritarismo – rebateu.
- E você sabe? – provoquei.
- Vou-lhe dizer o que penso sobre isso, se lhe interessa.
- Claro que me interessa.
- Então sente-se aí, que pode ser longa a coisa.

Busquei o velho banquinho, sentei-me e esperei que ele comesse a fruta que lhe trouxera. Só então, fixou os olhinhos em mim, arreganhou os dentes, num arremedo de sorriso, como fazem os macacos, acomodou-se e despejou sobre mim esta longa diatribe:

- O autoritarismo de Estado não é perverso apenas porque persegue, mata e toma decisões que afetam a vida de milhões de pessoas sem consultá-las e ainda destrói nações. Ele perverso também, e principalmente, porque penetra como a água na areia, em todas as mentes, e ali permanecem, ingerindo na vida das pessoas por muitos e muitos anos, interferindo nas pequenas decisões do dia a dia, as quais levam a grandes catástrofes humanas, mas realizadas de tal forma no cotidiano, que passam despercebidas e não são objeto de estudo nem entram para as estatísticas das desgraças que assolam a sua humanidade.

Não deixei de notar a forma irônica como ele disse “a sua humanidade”, mas nada disse e ele prosseguiu:

- As ideias conservadoras, eivadas de preconceito e de imposições morais, religiosas e tradicionais, constituem a erva daninha que assombra as mentes e obriga a que as pessoas façam gestos tresloucados ou se joguem no imobilismo que as leva à total ruína de suas próprias vidas e das vidas de pessoas que as amam, tornadas, muitas vezes, instrumentos de tortura na interferência de decisões que não deviam nem podiam ser tomadas sob o tacão da moral vigente ou de regras preestabelecidas de acordo com nefastas tradições de base moralista e religiosa, sob a tutela de deuses furibundos.

- E como evitar que essa erva daninha, como você disse, cresça e tome conta de tudo, Mike?
- Ah, isso já é outra história, melhor dizendo, isso só pode ser conseguido, se vocês, humanos, olharem melhor para a sua própria história, para a história de sua pretensa civilização. Os grandes heróis, os construtores de nações ou, como os latinos os denominam, os libertadores, esses homens tiveram importância primordial na concepção política do povo, mas deixaram, eles, sim, eles, deixaram indelevelmente marcada na mente das pessoas a necessidade de um líder, de um líder poderoso, que conduzisse as massas para um estado de beatitude e de bem estar, num messianismo catastrófico, que produziu o Estado autoritário e líderes ainda mais autoritários como Hitler, Mussolini e tantos outros.O único jeito de evitá-los é construir uma sociedade justa, leiga e extremamente consciente de seu poder transformador, nas ações do dia a dia, que não necessitam do chicote de um padrasto a lhes dizer a todo momento o que fazer. Mas isso, bem, isso é utopia, não é?
- Sim, a grande utopia.
- Então, meu caro, fique aí você com suas elucubrações político-partidárias, que eu vou dormir, que minha hora já passou há muito tempo...

E o macaquinho virou-me as costas e foi para seu abrigo, enquanto eu fiquei ainda um tempo por ali, tentando deglutir as palavras do Mike. Ao cabo, achei melhor nem comentar o que ele disse, porque nem sei se o que ele disse é realmente relevante ou foi apenas um momento de ranzizisse, que lhe é comum.

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