sexta-feira, 15 de outubro de 2010

SANTO DAIME?


(Adedos - Alaor)





O tempo abrira. Depois da chuva, a noite parecia mais bonita, o quarto crescente até dava o ar da graça e o ar molhado diminuía o desconforto do calor. Saí para respirar um pouco e dei com o Mike me olhando.


- Ficou assustado com a chuva? – Perguntei, irônico.

- Macacos não gostam de trovões. – Ele me respondeu, sério.

- É, sua cara não está nada boa. Vai dormir, Mike, que eu também vou.

- Estou sem sono... Você pode me explicar o que houve com o tal desenhista, o Glauco, eu não entendi direito a notícia...

- Ele foi assassinado, ele e o filho, por um jovem que invadiu sua casa... Parece que o cara estava em surto psicótico... tomava drogas... e um tal de Santo Daime...

- Ayahuasca: eu conheço essa planta.

- Puxa! Você conhece? Como? – Estava estupefato, com a revelação.

- Coisas de macaco... não interessa como. Só queria comentar algumas coisas. E acho que você pode não gostar, sei lá... não são coisas muito convenientes para os homens...

- Ora, Mike, você me conhece há mais de vinte anos e sabe que não tenho nenhum tipo de pré-julgamento de qualquer coisa, principalmente em relação às suas idéias...

- Está bem, então é melhor você sentar e ouvir, sem me interromper.

Puxei uma cadeira, que está sempre por ali, na lavanderia, e propus-me a ouvir. Mike, antes de começar a falar, pegou ainda um pedaço de banana já descascada e comeu um pouco. Seus olhinhos brilhavam e eu sabia muito bem a que isso podia nos levar.

- Bem – começou ele – você sabe que condeno todo tipo de religião. Mas condeno principalmente as religiões, seitas, filosofias ou que nomes vocês, humanos, dêem a organizações que, além do culto a uma divindade, ainda criam um monte de regras que interferem diretamente no dia a dia de vocês. Acredito que essas regras são formas de dominação de mentes, para que os seguidores não abandonem a seita, não abandonem o rebanho. Porque, quanto maior o rebanho de crentes, maior o poder ou maior a riqueza que os padres, bispos, gurus, papas, aiatolás, rabinos ou quantos nomes se apresentem os donos da verdade dessas seitas ou religiões obtêm. Muitos querem mesmo só dinheiro e o poder que o dinheiro lhes dá. Outros querem apenas o poder. Ou o poder sobre as pessoas ou o poder de salvar vidas que, eles acreditam (e são uns pobres de espírito), podem lhes assegurar algum tipo de recompensa diante de seu deus. Mas, no fundo, tudo é ganância, é desejo de poder, é desejo de manter sob sua tutela um rebanho de idiotas, de mentes obscurecidas pela fé que eles lhes incutem.

Mike respirou um pouco, comeu mais um pedaço da banana, e continuou.

- Marx disse ou disseram por ele que a religião é o ópio do povo. Mas a religião é muito mais: além de ópio, é controle, como eu disse agora há pouco. O crente de todas as religiões (e não há exceção nessa regra: pode haver mais ou menos controle, mas ele sempre existe) tem seu comportamento moldado pelas normas da religião e é marcado com alguns signos de reconhecimento como forma de autoproteção dos membros e como forma de ostentação de uma espécie de orgulho. Ou seja: eu ajo assim, porque sigo tal religião ou seita, e quero reconhecer meus pares na sociedade tanto quanto quero ser reconhecido. E, ao explicitar meu código, eu quero também que outras pessoas me vejam como exemplo e se tornem alvo de meu aliciamento. Porque quanto mais crentes tiver a tal organização, mais poder terão seus chefes, e isso também eu já disse e estou repetindo porque é muito importante que você compreenda esse conceito.

E o Mike fez uma nova pausa. Não queria interrompê-lo, mas não resisti.

- Tudo bem, Mike. O seu discurso até agora tem sentido e eu concordo com ele. Mas o que tem tudo isso com a morte do tal desenhista, humorista e caricaturista, o tal do Glauco? Esse assassinato foi muito lamentado por todos, inclusive por mim...

- Pois é: a isso eu quero chegar. Esse Glauco não era um dos líderes de uma seita ligada à ayahuasca? Ao tal do Santo Daime? Esse Santo Daime nada mais é do que um chá de ervas da floresta, um chá poderoso e alucinógeno. Os índios da Amazônia já o conheciam há séculos e dele faziam uso em suas cerimônias.

- Você não está querendo dizer que...

- Não, eu não quero tirar conclusões. Apenas fazer uma ilação que pode, inclusive, estar errada. Mas foi uma coisa que me passou aqui pela minha cabeça...

- Está bem, vamos lá. O que você fez de ilação da ayahuasca e o assassínio do Glauco?

- Você sabe que qualquer coisa que comemos ou bebemos tem efeito em nosso organismo. Tem gente que come um camarão e quase morre, porque tem algum tipo de alergia ao camarão. Então, nós consumimos somente aquilo que tem efeito positivo. Uma aspirina pode curar uma dor de cabeça de alguém e pode levar à morte outra pessoa. Então, voltando à ayahuasca: é um chá alucinógeno. Que pode ter efeitos completamente diferentes em muitas pessoas. O rapaz que matou o humorista frequentou a seita da qual ele era um dos líderes. E, segundo a família, não sei se é verdade, ele consumia diariamente o chá. Além disso, tinha problemas psiquiátricos e era usuário de drogas. Você não acha que é um coquetel potencialmente perigoso para uma pessoa só?

- É, acho que sim, se tudo isso for verdade...

- Eu lhe disse: é só uma suposição. Mas me parece que há uma ligação entre o surto desse rapaz e o consumo da ayahuasca.

- Mas o governo liberou essa droga para uso religioso...

- Sim, liberou mas fez algumas recomendações bem claras. E uma dessas recomendações é que esse chá não pode de forma alguma ser administrado a pessoas usuárias de drogas e a pessoas que tenham problemas psíquicos, o que era o caso do rapaz assassino. Ora, se ele tomava todos os dias a ayahuasca, é preciso, primeiro confirmar essa informação e, segundo, investigar de onde procedia o chá que ele dizia tomar...

- Você tem razão, Mike, embora lamentando a morte de uma pessoa que era, vamos dizer, “do bem”, podemos concluir...

- ... que ele pode ter sido vítima de suas próprias crenças, de sua seita, mesmo que não seja ele a pessoa que fornecia ao assassino a droga que lhe provocou um surto psicótico. Essa seita do Santo Daime trabalha num nível de cobrança e controle de seus seguidores muito perigoso, porque seu principal meio de interação com a divindade é uma alucinógeno. Enfim, talvez eu esteja totalmente errado nessas ilações, mas pode haver muito caroço nesse angu. E mesmo que eu esteja errado, tudo o que lhe disse agora há pouco sobre as religiões continua sendo verdade, pelo menos para mim.

- Eu concordo com você, Mike, meu caro macaquinho ateu...

- Como todos os macacos... como todos os bichos, aliás. Bem, vou dormir que esse papo já me cansou. Até amanhã.

E Mike me virou as costas e foi dormir. Fiquei ainda um pouco por ali, a pensar em tudo o que ele me disse. E concluí que o homem é mesmo um ser complicado, cheio de defeitos, ainda preso a tantas metafísicas impossíveis, a tantas crenças absurdas, que não se pode dizer quantos milhares de anos ainda ele há de evoluir, para deixar de ser bárbaro. Para deixar de matar uns aos outros.

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