terça-feira, 5 de outubro de 2010

QUE PAPELÃO!

(Balthus - jardins de Bagatelle)


Foi essa a expressão com que Mike me recebeu:

- Que papelão!

Claro, fiquei atônito, pensando que estivesse a referir-se a alguma coisa que eu tivesse feito. Mas, não: era um desabafo contra a palhaçada que foi a Cop – 15, em Copenhague.

Palhaçada de muitos palhaços, diga-se de passagem. Portanto, concordei de imediato com ele, com o sempre crítico Mike, o macaquinho que não tem papas na língua. Porém, seu discurso seguinte foi bem mais sensato e menos raivoso do que eu esperava.

- Vamos ser realistas – começou ele – esse escândalo todo sobre aquecimento global tem, sim, sua razão de ser, mas não exatamente como dizem os seus cientistas. Há um pouco de exagero na ação do homem.

- Você acha que o homem não é o culpado pelo clima da Terra, Mike?

- Não é bem assim. Preste atenção. A Terra é um gigantesco organismo vivo, a girar em torno do Sol, com leis próprias que condicionam sua existência. É um organismo extremamente instável. Como a vida humana é curta, e a própria existência do homem neste planeta é relativamente recente em comparação com a história da Terra, os humanos talvez ainda não se deram conta de que há ciclos que, mais ou menos, se repetem. A Terra já foi um inferno de quente e uma geleira total. Chegou, depois, a um certo equilíbrio, que permitiu o surgimento da vida. No entanto, esse equilíbrio – também relativizado pela história do planeta – é razoavelmente recente. E muito delicado. O que pode estar acontecendo é que, de qualquer forma, mesmo dentro desse relativo equilíbrio, a Terra muda, transforma-se, modifica-se. No clima, no movimento das marés, no gelo e degelo de certas regiões, como os pólos. E o que pode estar acontecendo agora é simplesmente – e essa palavra pode ser forte, mas está dentro da idéia de relativização da história da Terra – o início de um novo ciclo qualquer de mudanças. Talvez climáticas. Porque é assim o nosso planeta: ao pulsar de um novo momento, tudo pode acontecer, até a extinção de espécies como nós, os macacos, ou vocês, os humanos, para tudo recomeçar mais adiante, talvez de uma nova forma.

Ante a minha cara de espanto, diante de palavras tão fortes, o macaquinho tratou logo de me acalmar.

- Desculpe, não devia ter falado na extinção da raça humana, isso é deveras chocante. Só não é mais chocante do que a extinção dos primatas, claro. Mas, continuemos: acho que está em curso algum tipo de mudança natural. Agora, se o homem contribuiu para isso, não há a menor dúvida. Só não saberia mensurar quanto. E o mais importante: o progresso humano tem um preço: quem mais se apropriou dos recursos do planeta, para obter esse progresso, deve, sim, pagar a conta. Porém, não totalmente sozinhos, e isso é um conceito difícil de compreender.

- Como assim, não sozinhos? – interrompi, intrigado.

- É que os mais pobres precisam se conscientizar de que o seu progresso não pode ter o mesmo modelo dos países mais ricos, ou seja, eles vão precisar inventar um novo processo de superar seus problemas, sem poluir tanto quanto já o fizeram Estados Unidos, Europa e agora a China. Então, eles têm que entrar com essa cota de sacrifício. No entanto, parte do financiamento desse novo modelo é devido aos países ricos, isso não pode ser contestado: é o tal pagamento por conta de tudo o que fizeram de ruim contra a Terra, até agora.

- Você tem razão: o princípio é simples, mas o difícil é colocá-lo em prática.

- É por isso que, embora tenha me referido ao encontro de Copenhague como um papelão, não acho que tenha sido um total fracasso. Serviu, pelo menos, para despertar nas pessoas, em termos globais, a necessidade de se fazer alguma coisa. Nunca se discutiu tanto o clima, a biodiversidade, o desmatamento, a poluição e o lançamento de gases venenosos na atmosfera, como agora. O povo das ruas já está sentindo que o clima está mudando e o alerta de Copenhague fez a ligação, difícil, às vezes, de compreender, entre a ação humana e a mudança climática.

- Certo, não foi um desastre total, mas não houve também nenhum acordo que sinalizasse um início de resolução do problema.

- E você queria o quê? Pense bem: reuniram-se 192 nações, com problemas extremamente diversos, com culturas e estruturas de pensamento completamente diferentes, opostas até, representadas por pessoas que têm interesses conflitantes, e você queria que em poucos dias essas pessoas chegassem a um consenso, a um acordo? Era, desde o começo, uma missão muito complexa. O encontro serviu, no entanto, para cutucar os egos dos governantes do mundo e, principalmente, para alertar o povo de que esses líderes precisam se reunir de novo e estabelecer metas que possam começar a ser cumpridas de imediato. Porque o tempo urge, meu caro, e a Terra não perdoa a quem investe contra ela. Os microacontecimentos climáticos poderão se reproduzir em escala planetária: o homem ocupa, por exemplo, as várzeas de um rio e o rio se “vinga” (e aí você coloca todas as aspas possíveis, porque é só uma metáfora) enchendo suas casas de lama e esgoto. A Natureza não tem sentimentos. Tem apenas a si e a suas leis, que homem nenhum pode revogar...

- Então, você acha que...

- Olha, não acho nada, sabe? – o humor do Mike já havia se azedado. Vou é dormir, que já é tarde. Que vocês humanos – os maiores destruidores da natureza e os maiores interessados em salvar o planeta – se arranjem e tratem de buscar soluções. Afinal, para isso é que se consideram racionais, não é? Boa noite.

E lá se foi o Mike para o sono dos justos. Só não é justo, pensei eu, a humanidade toda pagar o preço de algo de que nem todos se beneficiaram. Mas, enfim, já que nos consideramos racionais, que algum dia prevaleça a racionalidade. E que esse dia não seja tarde demais. E fui dormir, também, não sem antes dar uma olhadinha no céu estrelado lá em cima. É sempre bom fazer isso – olhar o céu, a Lua, a natureza – porque a gente nunca sabe quando pode ser a última vez, não é?

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