terça-feira, 12 de outubro de 2010

MACACOS NÃO SÃO METAFÍSICOS


(Georges Mazilu)



Noite quente. Abafada. Havia chovido, e bastante. Mas a madrugada estava escaldante. Não conseguia dormir, mesmo com o ventilador a toda. Saí, para me refrescar. Mike também não dormira. Estava lá, matutando na vida. Puxei conversa.

- Dou-lhe uma bala de goma por um pensamento seu – provoquei.

Mike adora balas de goma. É parte de sua dieta. Então, de vez em quando é o que ele ganha, não como prêmio: necessidade dele e obrigação nossa, que cuidamos dele. Mas ele não entrou na provocação, não. Continuou calado por um tempo e depois me perguntou:

- Você sabe por que os homens têm religião?

Era o tema meio recorrente em nossas conversas, a religião. Nunca, porém, aprofundara ou aprofundáramos o motivo por que os homens têm religião.

- Tem alguma coisa a ver com a genética? – perguntei.

- Aí é é que está o nó – disse o Mike – até agora nada liga a religião a qualquer característica inata do homem e é mais provável que realmente não haja mesmo ligação nenhuma. Pelo menos, de acordo com os mais recentes estudos, que eu li ontem, no jornal,

- E que pesquisas são essas?

- Seguinte: dois pesquisadores da Universidade Helsink, da Finlândia – vou tentar falar o nome deles, não ria, por favor – Ilkka Pyysiäinen e Marc Hauser...

- Até que você se saiu bem com os nomes... e eles nem são tão difíceis assim... – disfarcei, claro, a vontade de rir, mas não podia tirar a concentração do Mike.

- Pois bem – ele me olhou feio e continuou – como eu ia dizendo, esses pesquisadores afirmam que a crença em deus ou deuses seria um produto e não a causa de comportamentos sociais.

- O que isso quer dizer, Mike?

- Isso quer dizer que o homem não tem princípios éticos por causa da religião. Ele os teria, mesmo sem as crenças religiosas. As religiões, os credos, as seitas é que se apropriam da moralidade intuitiva do homem, para formar seus paradigmas morais. Existem ateus tão altruístas quanto Irmã Dulce, e existem religiosos tão desonestos e antiéticos quanto pessoas não muito religiosas.

- Você quer dizer que a capacidade de distinguir o que é certo e o que é errado independe de códigos religiosos? É isso?

- Não sou eu que o digo, são esses finlandeses que afirmam. Segundo eles, o ser humano não tem uma propensão a ser religioso, mas sim a buscar causas e propósitos para o mundo ao seu redor – o que acaba, por vezes, por desembocar em alguma forma de religiosidade. Ou seja, a religião é um produto da evolução cultural – e aí entendamos evolução no sentido mais darwinista possível, de transformação, de mutação, não necessariamente envolvendo qualquer julgamento qualitativo – e não de evolução biológica. Se um fenômeno é universal, como a religião, isso não quer dizer que faça parte da biologia humana. Nós, os macacos, por exemplo, não temos nenhum resquício cultural que possamos denominar religião.

- Que ótimo! Os macacos não são metafísicos.

- Não, nada de metafísica. Isso é uma bobagem apenas humana.

- Puxa, Mike, então esses estudiosos finlandeses acabaram demonstrando uma tese que eu sempre defendi: a de que o homem é naturalmente ateu e só a cultura o torna religioso, pois somos bombardeados desde o berço com idéias, sentimentos, orações e cerimônias de cunho religioso?! Isso é fabuloso!

- É, sim: é um estudo muito importante, para o homem. No entanto, mereceu reportagens mínimas nos seus meios de comunicação, aliás, a maioria nem citou essa pesquisa. Você sabe como funciona o lobby das religiões...

- Como sei! Mas já fico com meu pensamento lavado, vingado, só com o fato de que já se comprovam teses que eu sempre defendi. É duro ser ateu, Mike, num mundo cercado de malucos religiosos, fanáticos que não enxergam um palmo diante do nariz e querem nos impor seus códigos imbecis de conduta.

- Puxa, como você está revoltado! – e o Mike caiu na risada.

- Muitos me chamam de revoltado, Mike, mas não é revolta não: é muito complicado quando você enxerga a estupidez e não pode impedir que as pessoas sejam estúpidas. Quando se começa a discutir religião com alguém, logo essa pessoa apela ou para a famigerada metafísica, ou seja, para a fé, ou afirma peremptoriamente que a religião é um freio ético para o homem, repetindo aquela bobagem do Dostoievsky – acho que é dele e acho também que essa bobagem não o diminui como escritor – que teria dito: “se não há deus, então tudo é possível”.

- Por isso é que nós, símios, não somos metafísicos... nem escritores – ironizou o Mike.

- Bem, vou relevar sua ironia, por hoje, depois dessa boa nova que você me trouxe. E vou procurar mais detalhes sobre esse estudo da Universidade de Helsinki.

- Vida longa aos finlandeses – devolveu-me o Mike. E vou dormir, que a noite já está bastante esticada.

Ainda fiquei por ali matutando um pouco, mas logo o sono veio e só acordei no dia seguinte, quase ao meio-dia, com uma grande vontade de fazer uma revolução ateísta no mundo. Bobagem. Revoluções não levam a nada. Só o pingar lento e tenaz da água através dos séculos é que constrói estalactites e estalagmites. Um dia – quem sabe? – surgirá o homem higiênico, aquele que...

Utopias, utopias!

Nenhum comentário:

Postar um comentário