sexta-feira, 1 de outubro de 2010

DARWIN À LUZ DA LUA





- Se não há criação, não há criador. – Mike, atrás de mim, enquanto observava o nascimento de uma flor, num vaso próximo.

- O quê?

- Pense comigo – e o Mike sentou-se, olhando para mim, com seus olhinhos redondos, numa pose típica – ao descobrir e enunciar a teoria das origens das espécies, Darwin detonou para sempre com o mito mais sagrado dos deístas: o mito da criação. Deus passa a ser inútil...

- Sim, claro, e não havendo deus, não há criação!

- Não. É o contrário: não havendo criação, não há mais necessidade de deus.

- Para mim, é a mesma coisa, mas... continue... e daí? Aonde você quer chegar?

- Você já reparou que, dentre todos os grandes cientistas, o único que não está tendo o ano de seu bicentenário badalado na mídia, como os outros, é o Charles?

- É verdade. Não havia me dado conta. Só publicações mais especializadas é que têm comemorado os duzentos anos desse grande cientista.

- Grande, não, o maior de todos.

- Como assim?

- Você já reparou o ódio dos criacionistas a Darwin?

- Justificável, não?

- Eles conseguem conviver com todas as demais ciências: se a Terra é que gira em torno do Sol, tudo bem – deus fez assim. Se o Universo é complexo, se a Natureza tem leis específicas, tudo bem – são desígnios de deus. Até mesmo com a complexidade da natureza humana ao conviver e guerrear entre si, em sociedades que rosnam umas para as outras, cometendo crimes e genocídios, eles conseguem conviver, já que deus, em sua infinita sabedoria, deu ao homem o livre arbítrio. Mas, com a idéia de que há não criação, como afirma Darwin, que temos todos a mesma origem, espécies que se modificam e se adaptam ao longo de milhões de anos de evolução, isso é demais para eles. Porque mexe com a base de toda a filosofia deísta: a ausência de um criador. E mais do que ausência: ao estudar e compreender o mecanismo da vida, a própria necessidade de deuses é descartada!

- Você quer dizer: Darwin libertou o homem...

- Exatamente. Darwin traz a natureza para dentro do homem e liberta-o das correntes da metafísica e das filosofias abstratas e absurdas. E mais: o homem deixa de ser a criatura de deus, para tornar-se mais um elo – claro que fundamental – na corrente da vida.

- Puxa, Mike, além de filósofo, você está me saindo um poeta...

- Bem, a vida é assim: bela, poética, não exatamente como vocês, homens, foram acostumados a ver, mas como Charles Darwin nos apresenta, a todas as raças, sem oposição entre animais e humanos, na luta pela sobrevivência não apenas de cada espécie, mas da permanência da vida neste planeta...

- Por isso, devemos cuidar dele, não é, desse nosso planeta tão único no universo.

- Se é único, não sei; singular e, talvez, o mais belo, sem dúvida. Vou dormir. Boa noite.

E assim, sem mais nada dizer, lá foi o Mike para sua casa, dormir o sono dos filósofos que sabem o que dizem. E eu fiquei por ali, olhando as flores que brotavam, o céu cheio de estrelas, a Lua que despontava, e pensei: o macaquinho tem razão, mais uma vez – ainda não sabemos dar total valor às idéias de Darwin. Seu trabalho é como a Lua: ilumina devagar, mas é esperança dentro da noite. Não há dúvida de que ele é o maior de todos os cientistas... Apesar de todo o ódio do lobby deísta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário