sexta-feira, 29 de outubro de 2010

UM LONGO E FURIBUNDO DISCURSO SOBRE POLÍTICA

(Odilon Redon - the fall of Icarus)





O macaquinho mal humorado revela-se, numa noite de inverno seca e quente. O inverno de 2010 castigou nosso sistema respiratório e aumentou a poluição da grande cidade. Mike também deve ter sentido os efeitos do clima, mas não se queixa sobre isso. Apenas observa e comenta. Nessa noite, no entanto, não era o clima a preocupação do Mike, mas a política, no seu sentido mais amplo. Assim que me aproximei, para levar-lhe uma fruta, perguntou-me como estavam as pequisas de opinião sobre as eleições. Respondi-lhe que o cenário conduzia para uma vitória em primeiro turno da candidata do Lula.

Mike não é exatamente um petista ou admirador do Lula, como eu. Mas noto que tem alguma simpatia pelo Presidente, por aquilo que ele realizou. Não gosta de política partidária, confessou-me uma vez.

- A direita tem feito algumas acusações de autoritarismo, por parte do Lula – disse-lhe eu.
- Isso é estupidez. Essa gente não sabe o que é autoritarismo – rebateu.
- E você sabe? – provoquei.
- Vou-lhe dizer o que penso sobre isso, se lhe interessa.
- Claro que me interessa.
- Então sente-se aí, que pode ser longa a coisa.

Busquei o velho banquinho, sentei-me e esperei que ele comesse a fruta que lhe trouxera. Só então, fixou os olhinhos em mim, arreganhou os dentes, num arremedo de sorriso, como fazem os macacos, acomodou-se e despejou sobre mim esta longa diatribe:

- O autoritarismo de Estado não é perverso apenas porque persegue, mata e toma decisões que afetam a vida de milhões de pessoas sem consultá-las e ainda destrói nações. Ele perverso também, e principalmente, porque penetra como a água na areia, em todas as mentes, e ali permanecem, ingerindo na vida das pessoas por muitos e muitos anos, interferindo nas pequenas decisões do dia a dia, as quais levam a grandes catástrofes humanas, mas realizadas de tal forma no cotidiano, que passam despercebidas e não são objeto de estudo nem entram para as estatísticas das desgraças que assolam a sua humanidade.

Não deixei de notar a forma irônica como ele disse “a sua humanidade”, mas nada disse e ele prosseguiu:

- As ideias conservadoras, eivadas de preconceito e de imposições morais, religiosas e tradicionais, constituem a erva daninha que assombra as mentes e obriga a que as pessoas façam gestos tresloucados ou se joguem no imobilismo que as leva à total ruína de suas próprias vidas e das vidas de pessoas que as amam, tornadas, muitas vezes, instrumentos de tortura na interferência de decisões que não deviam nem podiam ser tomadas sob o tacão da moral vigente ou de regras preestabelecidas de acordo com nefastas tradições de base moralista e religiosa, sob a tutela de deuses furibundos.

- E como evitar que essa erva daninha, como você disse, cresça e tome conta de tudo, Mike?
- Ah, isso já é outra história, melhor dizendo, isso só pode ser conseguido, se vocês, humanos, olharem melhor para a sua própria história, para a história de sua pretensa civilização. Os grandes heróis, os construtores de nações ou, como os latinos os denominam, os libertadores, esses homens tiveram importância primordial na concepção política do povo, mas deixaram, eles, sim, eles, deixaram indelevelmente marcada na mente das pessoas a necessidade de um líder, de um líder poderoso, que conduzisse as massas para um estado de beatitude e de bem estar, num messianismo catastrófico, que produziu o Estado autoritário e líderes ainda mais autoritários como Hitler, Mussolini e tantos outros.O único jeito de evitá-los é construir uma sociedade justa, leiga e extremamente consciente de seu poder transformador, nas ações do dia a dia, que não necessitam do chicote de um padrasto a lhes dizer a todo momento o que fazer. Mas isso, bem, isso é utopia, não é?
- Sim, a grande utopia.
- Então, meu caro, fique aí você com suas elucubrações político-partidárias, que eu vou dormir, que minha hora já passou há muito tempo...

E o macaquinho virou-me as costas e foi para seu abrigo, enquanto eu fiquei ainda um tempo por ali, tentando deglutir as palavras do Mike. Ao cabo, achei melhor nem comentar o que ele disse, porque nem sei se o que ele disse é realmente relevante ou foi apenas um momento de ranzizisse, que lhe é comum.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

VIDA E MORTE

(Vita - the expectation)





Um tema batia cá dentro na minha cabeça: a ideia da morte. Não a minha ou a de qualquer outro ser humano, mas a morte como espécie de “entidade” que todos tememos e da qual ninguém escapa. Como o Mike lida com essa ideia? Fui perguntar-lhe.

- Mike, você tem medo da morte?
- O quê? Não entendi sua pergunta – e o macaquinho arregalou os olhinhos redondos para mim.
- Morte, Mike, você pensa na morte?

Ele coçou a cabeça, andou um pouco de um lado para o outro, catou um pedaço de banana esquecido num canto, subiu ao cano que ficava bem diante de minha cabeça, tornou a se coçar e titubeou um pouco, antes de responder. Era a primeira vez, acho, que via o Mike assim, sem saber muito bem o que dizer. Mas, começou:

- Olha, eu me assusto às vezes com os estampidos que ouço de madrugada. Tenho medo de sombras que passam por trás de mim ou do grito do gavião que, de vez em quando, frequenta essas redondezas. Tive um treco, uma vez, você se lembra, fiquei uns tempos meio grogue, meio esquecido...

O Mike estava se referindo ao derrame que ele sofreu uns anos atrás, do qual já falei aqui. Enquanto isso, me enrolava num discurso meio estranho, não muito comum. Mas, continuei ouvindo, atento:

- ... acho que quase morri, não? – Acenei com a cabeça. – Foi o que mais perto cheguei àquilo que vocês, humanos, chamam de morte.
- Não entendi, você não tem certeza de que esteve para morrer?
- Aí é que está o problema: não sei exatamente o que é morte, o que é morrer. Nós, animais, e mesmo os grandes símios, os chamados primatas não humanos...
- Como assim, primatas não humanos? – interrompi, intrigado com essa expressão.
- Primatas são todos os grandes símios, você não sabe? Os orangotangos, os bonobos, os gorilas, o chimpanzés... e o homem, claro. Não são macacos, como nós, menores e um pouco mais distantes no parentesco com vocês, entendeu?
- Não muito, mas isso não importa agora. Eu quero saber...
- Sim, eu sei, você quer saber o que eu penso dessa coisa com que vocês, humanos, vivem se preocupando o tempo todo, a tal morte.

Acenei com a cabeça, já um pouco impaciente. Mas, com o Mike é assim: às vezes, ele desanda a falar e, às vezes, ele se enrola um pouco.

- Bem... vamos tentar entender o que é isso, morte. Para nós, animais, não existe o conceito morte, não nos preocupamos com ela, porque o tempo todo nós nos preocupamos em viver, ou sobreviver, continuar comendo, procriando, caçando, fazendo o que fazemos no dia a dia. Temos medo, sim, de sermos atacados, de virarmos comida de outros mais fortes, mas esse medo é atávico, ou seja, é parte de nossa natureza, é só um jeito de estarmos sempre alerta, de não sermos surpreendidos, não uma preocupação filosófica. Na verdade, não temos o conceito do que vocês chamam de “morte”, porque isso é tão... como direi... tão absolutamente parte da vida que, se ficássemos pensando nisso, não viveríamos, ou seja, teríamos, acho, extraída de nossas vidas um pedaço.
- Então, vocês não se preocupam com a morte...
- Não, absolutamente não. Não existe essa preocupação no reino animal. Existe, é claro, o medo, como já lhe falei, mas não há o medo da morte, no sentido de que vocês, humanos, lhe atribuem, como se fosse algo com que devêssemos nos preocupar. Há simplesmente a vida e somente a vida. Porque, se fôssemos ficar pensando em morte... por exemplo, o leão não caçaria e a corça só viveria para escapar do leão e, então, não haveria a natureza. É claro que a corça não quer virar comida, mas não porque ela tema morrer, mas porque ela quer continuar a viver...
- Querer continuar a viver não é temer a morte?
- Não. A coisa é complicada de explicar, mas é mais ou menos assim: viver é o que importa, morrer é só morrer e ficar pensando na morte não é viver.

Confesso que fiquei realmente confuso com as palavras do Mike. Tentei arrancar-lhe mais alguma coisa, mas ele dispensou o tema da forma mais simples e sincera que ele achou sem que fosse mal educado:

- Olha, na verdade, não é um assunto sobre o qual se deva falar, porque não tem nenhum interesse. Não entendo por que vocês, seres humanos, gastam tanta saliva, tanto papel, tanto trololó com isso. Vão viver suas vidas e esqueçam a morte, assim viverão melhor.

Acabou de comer o pedaço de banana, deu uma coçadinha nas costas e foi dormir. Fiquei ali, contemplando a noite, as estrelas, como sempre faço depois desses papos estranhos com o Mike. Porque, como já notaram os que visitam essas páginas, nossas conversas são sempre à noite, quando o silêncio da cidade é quebrado de longe em longe por alguns estampidos ou freadas de carro, ruídos distantes que o Mike odeia, porque o deixam, com certeza, com aquele medo atávico de que ele falou. Enfim, melhor deixar pra lá essa história de morte, de ficar pensando na morte. E simplesmente viver a vida. Porque isso é o mais simples que se pode fazer.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

SANTO DAIME?


(Adedos - Alaor)





O tempo abrira. Depois da chuva, a noite parecia mais bonita, o quarto crescente até dava o ar da graça e o ar molhado diminuía o desconforto do calor. Saí para respirar um pouco e dei com o Mike me olhando.


- Ficou assustado com a chuva? – Perguntei, irônico.

- Macacos não gostam de trovões. – Ele me respondeu, sério.

- É, sua cara não está nada boa. Vai dormir, Mike, que eu também vou.

- Estou sem sono... Você pode me explicar o que houve com o tal desenhista, o Glauco, eu não entendi direito a notícia...

- Ele foi assassinado, ele e o filho, por um jovem que invadiu sua casa... Parece que o cara estava em surto psicótico... tomava drogas... e um tal de Santo Daime...

- Ayahuasca: eu conheço essa planta.

- Puxa! Você conhece? Como? – Estava estupefato, com a revelação.

- Coisas de macaco... não interessa como. Só queria comentar algumas coisas. E acho que você pode não gostar, sei lá... não são coisas muito convenientes para os homens...

- Ora, Mike, você me conhece há mais de vinte anos e sabe que não tenho nenhum tipo de pré-julgamento de qualquer coisa, principalmente em relação às suas idéias...

- Está bem, então é melhor você sentar e ouvir, sem me interromper.

Puxei uma cadeira, que está sempre por ali, na lavanderia, e propus-me a ouvir. Mike, antes de começar a falar, pegou ainda um pedaço de banana já descascada e comeu um pouco. Seus olhinhos brilhavam e eu sabia muito bem a que isso podia nos levar.

- Bem – começou ele – você sabe que condeno todo tipo de religião. Mas condeno principalmente as religiões, seitas, filosofias ou que nomes vocês, humanos, dêem a organizações que, além do culto a uma divindade, ainda criam um monte de regras que interferem diretamente no dia a dia de vocês. Acredito que essas regras são formas de dominação de mentes, para que os seguidores não abandonem a seita, não abandonem o rebanho. Porque, quanto maior o rebanho de crentes, maior o poder ou maior a riqueza que os padres, bispos, gurus, papas, aiatolás, rabinos ou quantos nomes se apresentem os donos da verdade dessas seitas ou religiões obtêm. Muitos querem mesmo só dinheiro e o poder que o dinheiro lhes dá. Outros querem apenas o poder. Ou o poder sobre as pessoas ou o poder de salvar vidas que, eles acreditam (e são uns pobres de espírito), podem lhes assegurar algum tipo de recompensa diante de seu deus. Mas, no fundo, tudo é ganância, é desejo de poder, é desejo de manter sob sua tutela um rebanho de idiotas, de mentes obscurecidas pela fé que eles lhes incutem.

Mike respirou um pouco, comeu mais um pedaço da banana, e continuou.

- Marx disse ou disseram por ele que a religião é o ópio do povo. Mas a religião é muito mais: além de ópio, é controle, como eu disse agora há pouco. O crente de todas as religiões (e não há exceção nessa regra: pode haver mais ou menos controle, mas ele sempre existe) tem seu comportamento moldado pelas normas da religião e é marcado com alguns signos de reconhecimento como forma de autoproteção dos membros e como forma de ostentação de uma espécie de orgulho. Ou seja: eu ajo assim, porque sigo tal religião ou seita, e quero reconhecer meus pares na sociedade tanto quanto quero ser reconhecido. E, ao explicitar meu código, eu quero também que outras pessoas me vejam como exemplo e se tornem alvo de meu aliciamento. Porque quanto mais crentes tiver a tal organização, mais poder terão seus chefes, e isso também eu já disse e estou repetindo porque é muito importante que você compreenda esse conceito.

E o Mike fez uma nova pausa. Não queria interrompê-lo, mas não resisti.

- Tudo bem, Mike. O seu discurso até agora tem sentido e eu concordo com ele. Mas o que tem tudo isso com a morte do tal desenhista, humorista e caricaturista, o tal do Glauco? Esse assassinato foi muito lamentado por todos, inclusive por mim...

- Pois é: a isso eu quero chegar. Esse Glauco não era um dos líderes de uma seita ligada à ayahuasca? Ao tal do Santo Daime? Esse Santo Daime nada mais é do que um chá de ervas da floresta, um chá poderoso e alucinógeno. Os índios da Amazônia já o conheciam há séculos e dele faziam uso em suas cerimônias.

- Você não está querendo dizer que...

- Não, eu não quero tirar conclusões. Apenas fazer uma ilação que pode, inclusive, estar errada. Mas foi uma coisa que me passou aqui pela minha cabeça...

- Está bem, vamos lá. O que você fez de ilação da ayahuasca e o assassínio do Glauco?

- Você sabe que qualquer coisa que comemos ou bebemos tem efeito em nosso organismo. Tem gente que come um camarão e quase morre, porque tem algum tipo de alergia ao camarão. Então, nós consumimos somente aquilo que tem efeito positivo. Uma aspirina pode curar uma dor de cabeça de alguém e pode levar à morte outra pessoa. Então, voltando à ayahuasca: é um chá alucinógeno. Que pode ter efeitos completamente diferentes em muitas pessoas. O rapaz que matou o humorista frequentou a seita da qual ele era um dos líderes. E, segundo a família, não sei se é verdade, ele consumia diariamente o chá. Além disso, tinha problemas psiquiátricos e era usuário de drogas. Você não acha que é um coquetel potencialmente perigoso para uma pessoa só?

- É, acho que sim, se tudo isso for verdade...

- Eu lhe disse: é só uma suposição. Mas me parece que há uma ligação entre o surto desse rapaz e o consumo da ayahuasca.

- Mas o governo liberou essa droga para uso religioso...

- Sim, liberou mas fez algumas recomendações bem claras. E uma dessas recomendações é que esse chá não pode de forma alguma ser administrado a pessoas usuárias de drogas e a pessoas que tenham problemas psíquicos, o que era o caso do rapaz assassino. Ora, se ele tomava todos os dias a ayahuasca, é preciso, primeiro confirmar essa informação e, segundo, investigar de onde procedia o chá que ele dizia tomar...

- Você tem razão, Mike, embora lamentando a morte de uma pessoa que era, vamos dizer, “do bem”, podemos concluir...

- ... que ele pode ter sido vítima de suas próprias crenças, de sua seita, mesmo que não seja ele a pessoa que fornecia ao assassino a droga que lhe provocou um surto psicótico. Essa seita do Santo Daime trabalha num nível de cobrança e controle de seus seguidores muito perigoso, porque seu principal meio de interação com a divindade é uma alucinógeno. Enfim, talvez eu esteja totalmente errado nessas ilações, mas pode haver muito caroço nesse angu. E mesmo que eu esteja errado, tudo o que lhe disse agora há pouco sobre as religiões continua sendo verdade, pelo menos para mim.

- Eu concordo com você, Mike, meu caro macaquinho ateu...

- Como todos os macacos... como todos os bichos, aliás. Bem, vou dormir que esse papo já me cansou. Até amanhã.

E Mike me virou as costas e foi dormir. Fiquei ainda um pouco por ali, a pensar em tudo o que ele me disse. E concluí que o homem é mesmo um ser complicado, cheio de defeitos, ainda preso a tantas metafísicas impossíveis, a tantas crenças absurdas, que não se pode dizer quantos milhares de anos ainda ele há de evoluir, para deixar de ser bárbaro. Para deixar de matar uns aos outros.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

MACACOS NÃO SÃO METAFÍSICOS


(Georges Mazilu)



Noite quente. Abafada. Havia chovido, e bastante. Mas a madrugada estava escaldante. Não conseguia dormir, mesmo com o ventilador a toda. Saí, para me refrescar. Mike também não dormira. Estava lá, matutando na vida. Puxei conversa.

- Dou-lhe uma bala de goma por um pensamento seu – provoquei.

Mike adora balas de goma. É parte de sua dieta. Então, de vez em quando é o que ele ganha, não como prêmio: necessidade dele e obrigação nossa, que cuidamos dele. Mas ele não entrou na provocação, não. Continuou calado por um tempo e depois me perguntou:

- Você sabe por que os homens têm religião?

Era o tema meio recorrente em nossas conversas, a religião. Nunca, porém, aprofundara ou aprofundáramos o motivo por que os homens têm religião.

- Tem alguma coisa a ver com a genética? – perguntei.

- Aí é é que está o nó – disse o Mike – até agora nada liga a religião a qualquer característica inata do homem e é mais provável que realmente não haja mesmo ligação nenhuma. Pelo menos, de acordo com os mais recentes estudos, que eu li ontem, no jornal,

- E que pesquisas são essas?

- Seguinte: dois pesquisadores da Universidade Helsink, da Finlândia – vou tentar falar o nome deles, não ria, por favor – Ilkka Pyysiäinen e Marc Hauser...

- Até que você se saiu bem com os nomes... e eles nem são tão difíceis assim... – disfarcei, claro, a vontade de rir, mas não podia tirar a concentração do Mike.

- Pois bem – ele me olhou feio e continuou – como eu ia dizendo, esses pesquisadores afirmam que a crença em deus ou deuses seria um produto e não a causa de comportamentos sociais.

- O que isso quer dizer, Mike?

- Isso quer dizer que o homem não tem princípios éticos por causa da religião. Ele os teria, mesmo sem as crenças religiosas. As religiões, os credos, as seitas é que se apropriam da moralidade intuitiva do homem, para formar seus paradigmas morais. Existem ateus tão altruístas quanto Irmã Dulce, e existem religiosos tão desonestos e antiéticos quanto pessoas não muito religiosas.

- Você quer dizer que a capacidade de distinguir o que é certo e o que é errado independe de códigos religiosos? É isso?

- Não sou eu que o digo, são esses finlandeses que afirmam. Segundo eles, o ser humano não tem uma propensão a ser religioso, mas sim a buscar causas e propósitos para o mundo ao seu redor – o que acaba, por vezes, por desembocar em alguma forma de religiosidade. Ou seja, a religião é um produto da evolução cultural – e aí entendamos evolução no sentido mais darwinista possível, de transformação, de mutação, não necessariamente envolvendo qualquer julgamento qualitativo – e não de evolução biológica. Se um fenômeno é universal, como a religião, isso não quer dizer que faça parte da biologia humana. Nós, os macacos, por exemplo, não temos nenhum resquício cultural que possamos denominar religião.

- Que ótimo! Os macacos não são metafísicos.

- Não, nada de metafísica. Isso é uma bobagem apenas humana.

- Puxa, Mike, então esses estudiosos finlandeses acabaram demonstrando uma tese que eu sempre defendi: a de que o homem é naturalmente ateu e só a cultura o torna religioso, pois somos bombardeados desde o berço com idéias, sentimentos, orações e cerimônias de cunho religioso?! Isso é fabuloso!

- É, sim: é um estudo muito importante, para o homem. No entanto, mereceu reportagens mínimas nos seus meios de comunicação, aliás, a maioria nem citou essa pesquisa. Você sabe como funciona o lobby das religiões...

- Como sei! Mas já fico com meu pensamento lavado, vingado, só com o fato de que já se comprovam teses que eu sempre defendi. É duro ser ateu, Mike, num mundo cercado de malucos religiosos, fanáticos que não enxergam um palmo diante do nariz e querem nos impor seus códigos imbecis de conduta.

- Puxa, como você está revoltado! – e o Mike caiu na risada.

- Muitos me chamam de revoltado, Mike, mas não é revolta não: é muito complicado quando você enxerga a estupidez e não pode impedir que as pessoas sejam estúpidas. Quando se começa a discutir religião com alguém, logo essa pessoa apela ou para a famigerada metafísica, ou seja, para a fé, ou afirma peremptoriamente que a religião é um freio ético para o homem, repetindo aquela bobagem do Dostoievsky – acho que é dele e acho também que essa bobagem não o diminui como escritor – que teria dito: “se não há deus, então tudo é possível”.

- Por isso é que nós, símios, não somos metafísicos... nem escritores – ironizou o Mike.

- Bem, vou relevar sua ironia, por hoje, depois dessa boa nova que você me trouxe. E vou procurar mais detalhes sobre esse estudo da Universidade de Helsinki.

- Vida longa aos finlandeses – devolveu-me o Mike. E vou dormir, que a noite já está bastante esticada.

Ainda fiquei por ali matutando um pouco, mas logo o sono veio e só acordei no dia seguinte, quase ao meio-dia, com uma grande vontade de fazer uma revolução ateísta no mundo. Bobagem. Revoluções não levam a nada. Só o pingar lento e tenaz da água através dos séculos é que constrói estalactites e estalagmites. Um dia – quem sabe? – surgirá o homem higiênico, aquele que...

Utopias, utopias!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

QUE PAPELÃO!

(Balthus - jardins de Bagatelle)


Foi essa a expressão com que Mike me recebeu:

- Que papelão!

Claro, fiquei atônito, pensando que estivesse a referir-se a alguma coisa que eu tivesse feito. Mas, não: era um desabafo contra a palhaçada que foi a Cop – 15, em Copenhague.

Palhaçada de muitos palhaços, diga-se de passagem. Portanto, concordei de imediato com ele, com o sempre crítico Mike, o macaquinho que não tem papas na língua. Porém, seu discurso seguinte foi bem mais sensato e menos raivoso do que eu esperava.

- Vamos ser realistas – começou ele – esse escândalo todo sobre aquecimento global tem, sim, sua razão de ser, mas não exatamente como dizem os seus cientistas. Há um pouco de exagero na ação do homem.

- Você acha que o homem não é o culpado pelo clima da Terra, Mike?

- Não é bem assim. Preste atenção. A Terra é um gigantesco organismo vivo, a girar em torno do Sol, com leis próprias que condicionam sua existência. É um organismo extremamente instável. Como a vida humana é curta, e a própria existência do homem neste planeta é relativamente recente em comparação com a história da Terra, os humanos talvez ainda não se deram conta de que há ciclos que, mais ou menos, se repetem. A Terra já foi um inferno de quente e uma geleira total. Chegou, depois, a um certo equilíbrio, que permitiu o surgimento da vida. No entanto, esse equilíbrio – também relativizado pela história do planeta – é razoavelmente recente. E muito delicado. O que pode estar acontecendo é que, de qualquer forma, mesmo dentro desse relativo equilíbrio, a Terra muda, transforma-se, modifica-se. No clima, no movimento das marés, no gelo e degelo de certas regiões, como os pólos. E o que pode estar acontecendo agora é simplesmente – e essa palavra pode ser forte, mas está dentro da idéia de relativização da história da Terra – o início de um novo ciclo qualquer de mudanças. Talvez climáticas. Porque é assim o nosso planeta: ao pulsar de um novo momento, tudo pode acontecer, até a extinção de espécies como nós, os macacos, ou vocês, os humanos, para tudo recomeçar mais adiante, talvez de uma nova forma.

Ante a minha cara de espanto, diante de palavras tão fortes, o macaquinho tratou logo de me acalmar.

- Desculpe, não devia ter falado na extinção da raça humana, isso é deveras chocante. Só não é mais chocante do que a extinção dos primatas, claro. Mas, continuemos: acho que está em curso algum tipo de mudança natural. Agora, se o homem contribuiu para isso, não há a menor dúvida. Só não saberia mensurar quanto. E o mais importante: o progresso humano tem um preço: quem mais se apropriou dos recursos do planeta, para obter esse progresso, deve, sim, pagar a conta. Porém, não totalmente sozinhos, e isso é um conceito difícil de compreender.

- Como assim, não sozinhos? – interrompi, intrigado.

- É que os mais pobres precisam se conscientizar de que o seu progresso não pode ter o mesmo modelo dos países mais ricos, ou seja, eles vão precisar inventar um novo processo de superar seus problemas, sem poluir tanto quanto já o fizeram Estados Unidos, Europa e agora a China. Então, eles têm que entrar com essa cota de sacrifício. No entanto, parte do financiamento desse novo modelo é devido aos países ricos, isso não pode ser contestado: é o tal pagamento por conta de tudo o que fizeram de ruim contra a Terra, até agora.

- Você tem razão: o princípio é simples, mas o difícil é colocá-lo em prática.

- É por isso que, embora tenha me referido ao encontro de Copenhague como um papelão, não acho que tenha sido um total fracasso. Serviu, pelo menos, para despertar nas pessoas, em termos globais, a necessidade de se fazer alguma coisa. Nunca se discutiu tanto o clima, a biodiversidade, o desmatamento, a poluição e o lançamento de gases venenosos na atmosfera, como agora. O povo das ruas já está sentindo que o clima está mudando e o alerta de Copenhague fez a ligação, difícil, às vezes, de compreender, entre a ação humana e a mudança climática.

- Certo, não foi um desastre total, mas não houve também nenhum acordo que sinalizasse um início de resolução do problema.

- E você queria o quê? Pense bem: reuniram-se 192 nações, com problemas extremamente diversos, com culturas e estruturas de pensamento completamente diferentes, opostas até, representadas por pessoas que têm interesses conflitantes, e você queria que em poucos dias essas pessoas chegassem a um consenso, a um acordo? Era, desde o começo, uma missão muito complexa. O encontro serviu, no entanto, para cutucar os egos dos governantes do mundo e, principalmente, para alertar o povo de que esses líderes precisam se reunir de novo e estabelecer metas que possam começar a ser cumpridas de imediato. Porque o tempo urge, meu caro, e a Terra não perdoa a quem investe contra ela. Os microacontecimentos climáticos poderão se reproduzir em escala planetária: o homem ocupa, por exemplo, as várzeas de um rio e o rio se “vinga” (e aí você coloca todas as aspas possíveis, porque é só uma metáfora) enchendo suas casas de lama e esgoto. A Natureza não tem sentimentos. Tem apenas a si e a suas leis, que homem nenhum pode revogar...

- Então, você acha que...

- Olha, não acho nada, sabe? – o humor do Mike já havia se azedado. Vou é dormir, que já é tarde. Que vocês humanos – os maiores destruidores da natureza e os maiores interessados em salvar o planeta – se arranjem e tratem de buscar soluções. Afinal, para isso é que se consideram racionais, não é? Boa noite.

E lá se foi o Mike para o sono dos justos. Só não é justo, pensei eu, a humanidade toda pagar o preço de algo de que nem todos se beneficiaram. Mas, enfim, já que nos consideramos racionais, que algum dia prevaleça a racionalidade. E que esse dia não seja tarde demais. E fui dormir, também, não sem antes dar uma olhadinha no céu estrelado lá em cima. É sempre bom fazer isso – olhar o céu, a Lua, a natureza – porque a gente nunca sabe quando pode ser a última vez, não é?

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

DARWIN À LUZ DA LUA





- Se não há criação, não há criador. – Mike, atrás de mim, enquanto observava o nascimento de uma flor, num vaso próximo.

- O quê?

- Pense comigo – e o Mike sentou-se, olhando para mim, com seus olhinhos redondos, numa pose típica – ao descobrir e enunciar a teoria das origens das espécies, Darwin detonou para sempre com o mito mais sagrado dos deístas: o mito da criação. Deus passa a ser inútil...

- Sim, claro, e não havendo deus, não há criação!

- Não. É o contrário: não havendo criação, não há mais necessidade de deus.

- Para mim, é a mesma coisa, mas... continue... e daí? Aonde você quer chegar?

- Você já reparou que, dentre todos os grandes cientistas, o único que não está tendo o ano de seu bicentenário badalado na mídia, como os outros, é o Charles?

- É verdade. Não havia me dado conta. Só publicações mais especializadas é que têm comemorado os duzentos anos desse grande cientista.

- Grande, não, o maior de todos.

- Como assim?

- Você já reparou o ódio dos criacionistas a Darwin?

- Justificável, não?

- Eles conseguem conviver com todas as demais ciências: se a Terra é que gira em torno do Sol, tudo bem – deus fez assim. Se o Universo é complexo, se a Natureza tem leis específicas, tudo bem – são desígnios de deus. Até mesmo com a complexidade da natureza humana ao conviver e guerrear entre si, em sociedades que rosnam umas para as outras, cometendo crimes e genocídios, eles conseguem conviver, já que deus, em sua infinita sabedoria, deu ao homem o livre arbítrio. Mas, com a idéia de que há não criação, como afirma Darwin, que temos todos a mesma origem, espécies que se modificam e se adaptam ao longo de milhões de anos de evolução, isso é demais para eles. Porque mexe com a base de toda a filosofia deísta: a ausência de um criador. E mais do que ausência: ao estudar e compreender o mecanismo da vida, a própria necessidade de deuses é descartada!

- Você quer dizer: Darwin libertou o homem...

- Exatamente. Darwin traz a natureza para dentro do homem e liberta-o das correntes da metafísica e das filosofias abstratas e absurdas. E mais: o homem deixa de ser a criatura de deus, para tornar-se mais um elo – claro que fundamental – na corrente da vida.

- Puxa, Mike, além de filósofo, você está me saindo um poeta...

- Bem, a vida é assim: bela, poética, não exatamente como vocês, homens, foram acostumados a ver, mas como Charles Darwin nos apresenta, a todas as raças, sem oposição entre animais e humanos, na luta pela sobrevivência não apenas de cada espécie, mas da permanência da vida neste planeta...

- Por isso, devemos cuidar dele, não é, desse nosso planeta tão único no universo.

- Se é único, não sei; singular e, talvez, o mais belo, sem dúvida. Vou dormir. Boa noite.

E assim, sem mais nada dizer, lá foi o Mike para sua casa, dormir o sono dos filósofos que sabem o que dizem. E eu fiquei por ali, olhando as flores que brotavam, o céu cheio de estrelas, a Lua que despontava, e pensei: o macaquinho tem razão, mais uma vez – ainda não sabemos dar total valor às idéias de Darwin. Seu trabalho é como a Lua: ilumina devagar, mas é esperança dentro da noite. Não há dúvida de que ele é o maior de todos os cientistas... Apesar de todo o ódio do lobby deísta.