sexta-feira, 3 de setembro de 2010

UM VÍRUS QUE DEVORA... A TERRA

(Adedos - quiet lives)



Tarde de inverno. A primeira. E fria. Mike queria algo para comer e dormir. Normalmente, um pedaço de pão com Nescau Power, o único de que ele gosta. No leite quente. Minha mulher levou-lhe o acepipe e subiu. Fiquei por ali, mais um pouco. Mike me chamou.

- Está encrencada essa história de aquecimento global, poluição, destruição das florestas, hem? – disse ele, ainda mastigando com gosto o pão molhado.
- Nem diga, Mike, nem diga. O homem tem sujado demais o planeta e, agora, está difícil limpá-lo.
- Só há uma solução. Não é simples, mas é a única.
- Única? Então você acha que existe uma única solução para a sobrevivência do homem?
- Eu não disse sobrevivência do homem. Estou pensando na sobrevivência do planeta, que vocês chamam Terra.
- Como assim? Você acha que é mais importante a Terra do que o Homem? – minha pergunta foi tão incisiva que, eu acho, ele ouviu a palavra homem com H, maiúsculo.
- É, sim, a Terra é mais importante do que o Homem – Mike também sabia ser irônico, ao acentuar bem a última palavra.
- Quer ser mais explícito?
- Ouça – e ele se acomodou melhor, com aquela paciência que só os macacos têm. Vou tentar resumir a situação.

Puxei a gola do casaco para a orelha e preparei-me para ouvir uma longa dissertação, esquecido, talvez, da capacidade de síntese de meu velho amigo. Pois que ele não demorou mais do que uns dez minutos, para dizer o que abaixo se segue.

- Lembra os dinossauros? Dominaram a Terra há milhões de anos. E desapareceram. Se foi obra de um meteoro que mudou o clima, não sei. O que sei é que, se tivessem continuado sua existência por mais alguns milhares de anos, teriam destruído a Terra e a si mesmos. Eram vírus. Que comiam demais. Que destruíam demais. E não tinham mais inimigos, predadores que pudessem regular sua população. Dou outro exemplo, por mais cruel que possa parecer: as baleias. Se se procriarem sem limites, tomarão os mares e farão deles desertos de peixes, pois comem demais, destroem demais, porque cresceram muito e não têm mais predadores naturais. A não ser o homem. E o homem, quando as caça e mata, desde que não seja uma matança sem controle, está, na verdade, estabelecendo um certo equilíbrio. Nenhuma espécie que se desenvolveu a ponto de não ter predadores naturais pode sobreviver e tornar-se absoluta. Porque desequilibra o tênue ecossistema de que vive o nosso planeta. Uma espécie absoluta torna-se uma espécie de vírus, de vírus que destrói sem encontrar limites para a destruição. E hoje... Bem, acho que você me entendeu: o vírus da Terra é homem, é a humanidade. Cresceu demais, destrói demais. Nem as guerras, nem as catástrofes naturais, nem a falta de alimentos têm impedido o homem de se multiplicar descontroladamente. Então, a poluição, o aquecimento global e o desequilíbrio do ambiente deverão fazer o serviço sujo, o de conter o homem. O problema, agora, no entanto, é que a Terra está tão dependente da humanidade que, se ela for destruída, como os dinossauros, todo o planeta poderá ir junto. E a evolução das espécies sofrerá danos que demorarão milhões de anos para serem recuperados.
- Então, a única solução é esta? A destruição da humanidade? – o espanto e o desencanto pareceram evidentes em minhas palavras. Mike sorriu, lá do jeito dele, arreganhando os dentes.
- Não, seu bobo, não se pode mais destruir a humanidade, esse vírus que se multiplica e devora a Terra como se ela tivesse recursos infinitos. Trata-se, apenas, de conter o crescimento desordenado da população humana. Uma solução difícil, claro, mas a única: não há recursos suficientes para tantos bilhões de seres humanos. Ou vocês acham um jeito de controlar o crescimento populacional, ou...

Ele não concluiu a frase. Nem precisava. Além disso, o frio e a noite já tornavam a minha permanência no quintal muito dolorosa. Mike foi dormir e eu, um dos bilhões de vírus a atacar o tênue equilíbrio da Terra, achei melhor entrar, para assistir, nos telejornais da noite, às notícias alarmantes da derrubada de florestas, para virar carvão; à volta da inflação, por causa da escassez de alimentos; à busca desesperada dos políticos para equilibrar a destruição com crescimento; à descoberta de novas formas de energia... Enfim, a catástrofe anunciada, a encrenca aparentemente sem saída em que se meteu o homem.

Que cenário! - pensei, mas os vírus estão tentando reagir. Haverá tempo?

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