terça-feira, 14 de setembro de 2010

O QUE É, MESMO, A TAL DA BARBÁRIE?

(Adedos - horse rides fish)



Calor e chuva. Verão brasileiro. Com direito a inundações e desabrigados. É só o que se vê se ouve nos noticiários da televisão. Assombram-me. Não quero mais ouvir falar sobre isso: saio a ver a Lua cheia. Mike está sério. Não come o pedaço de maçã que lhe dou. Espera. Há um olhar de desconfiança entre nós.

- Não gosto desse seu jeito taciturno, provoco.

- Não estou taciturno, estou meio desgostoso com vocês, humanos.

- Isso não é novidade...

- Não, não é... Mas agora o assunto é tão idiota, que fico até envergonhado de tocar nele – o velho Mike de volta.

Espero. Sei que vem bomba por aí.

- O que é barbárie? – pergunta-me, irônico, o macaquinho esperto.

- De novo esse assunto, Mike? Você sabe o que eu penso...

- Desculpe, estava fazendo a pergunta para mim mesmo.

- Vamos, desembuche: o que o aflige? As guerras humanas? A fome na África ou a epidemia de AIDS? As matanças do tráfico e as cabeças cortadas de bandidinhos de periferia por policiais que se julgam juízes?...

- Não, desta vez, o que me aflige são os seus estudantes, os futuros doutores, aqueles que vão se constituir na chamada elite intelectual desse País...

- De que você está falando, Mike? Seja mais explícito.

- Estou falando do velho trote. Esse que acontece todo ano, no início das aulas, nas faculdades frequentadas pelos meninos e meninas considerados mais inteligentes de sua sociedade... Está certo, o passar no vestibular é um rito de passagem. Nós, macacos, entendemos muito disso. Quase todas as sociedades têm ritos de passagem. E quanto mais violentos esses ritos, mas primitivas são essas sociedades, pelo menos em minha opinião. Já numa sociedade que tem o desenvolvimento intelectual, científico, filosófico e técnico a que vocês, humanos, chegaram, hoje, qualquer tipo de rito de passagem que implique violência devia (escute bem: eu disse devia, e não deveria!) estar fora de qualquer cogitação. No entanto, seus jovens insistem em trotes violentos e humilhantes, para receber os calouros que entram nas suas escolas superiores. Isso, para mim, é um índice muito claro de barbárie, de estupidez humana. São tradições medievais que já deviam ter sido abandonadas há muito, muito tempo... Por que eles insistem? Por quê?

- Você tem toda razão, Mike. É absolutamente impensável que jovens bem nascidos, estudados, educados... – vacilei por um minuto, buscando a conclusão da frase.

-... sejam tão absolutamente estúpidos, não é? – concluiu o macaquinho, já mais calmo, mordendo o seu pedaço de maçã.

Nada mais havia a dizer. A Lua, lá em cima, convidava-nos à contemplação de sua beleza. Pensei: se esses jovens que aplicam trotes tivessem a sensibilidade de olhar de vez em quando para uma Lua dessas, talvez, quem sabe, fossem menos bárbaros. Mike parece que leu meus pensamentos. Completou:

- Só a noção do belo pode tirar o homem da barbárie.

E foi dormir. Eu também.

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