terça-feira, 28 de setembro de 2010

ESSES CRISTÃOS!

(Adela Leibowitz - the flowers of evil)



A primavera começou com frio. Muito frio. Não quis sair à noite, para conversar com o Mike, encolhido, com certeza, em sua casa, sonhando o sonho dos macacos. Mas, como ele é um macaco muito especial, com certeza seus sonhos deviam vagar por esferas mais complexas do pensamento simiesco, tantas vezes mais sutil que os nossos. Apenas abri a janela, um pouco, para respirar o ar frio, sentir o vento cortante, apreciar a sombra da pitangueira coberta de frutos.

Meus pensamentos voaram. Primeiro, pelo silêncio da noite, quebrado aqui e ali por algum ruído distante de viaturas policiais, ou pelo estampido de uma moto. Estava, realmente, silenciosa a noite.

Mas não era assim, há pouco. Alguns minutos atrás, minha companheira estava realmente aborrecida com a barulheira de uma igrejinha caça-níqueis que existe perto de casa. Seus frequentadores, como soem fazer em algumas sextas-feiras, estavam em vigília, ou seja, iam orar a noite toda. Claro, para garantir alguns tostões a mais no bolso do pastor, já que é fim de mês e há contas a pagar.

Já outras vigílias anteriores haviam perturbado o sono de nossos filhos, que acordam cedo para trabalhar. A companheira, por isso, estava realmente incomodada e resolvera ir lá reclamar com o pastor, o que os fez calar, pelo menos por essa noite. Não havia mais barulho. Temeram a força do seu argumento: a polícia seria chamada, se insistissem.

Então, fiquei pensando: que gente terrível são esses cristãos, principalmente esses cristãos novíssimos dessas igrejolas caça-níqueis que se espalham por aí. Seu deus é muito exigente: cobra caro pelas orações, pelas graças concedidas, pelas bênçãos. Do cristianismo dos velhos tempos, ainda resta esse fervor bíblico, rancoroso, cheio de medos, cheio de demônios a espreitar em cada esquina, pronto a saltar sobre as almas e levá-las para o sofrimento eterno. Que só é evitável, dando dinheiro, muito dinheiro, para os pastores.

Pensei mais: no tanto que havia estudado as religiões, desde os mitos mais antigos, os deuses primordiais, com suas lutas pelo domínio do Olimpo ou das mentes humanas, seus castigos aos impenitentes, seus ódios aos opositores e aos que desobedeciam às suas regras ou às suas ordens.

Foram sempre muito sanguinários todos os deuses que os homens inventaram. Sempre exigiram sacrifícios, em todas as civilizações. Sacrifícios que iam desde o mais simples ramo de flor ao pé de seus vetustos altares até a vida de seres humanos. Cruentos ou incruentos, o sacrifício implicava, e ainda implica sempre, a humilhação humana diante do divino, para satisfação da casta sacerdotal por trás de cada altar, por trás de cada templo, a recolher as migalhas de cada crente para transformá-las em riqueza pessoal e em poder humano, muito humano.

E os homens sempre a cumprir vontade dos deuses. Em todos os tempos. Em todas as civilizações. Mas, com mais tenacidade, na era chamada cristã. De miseráveis perdedores, no império romano, tornaram-se vitoriosos contra todos os leões da velha Roma, despontando anos depois com força, poder e ódio, muito ódio, para se vingar de toda a humilhação passada. E eu penso, com sarcasmo: faltaram leões na velha Roma. Que pena!

Ah! os cristãos! Sob a pele do cordeiro (tomando deles a velha metáfora), torturaram, mataram,destruíram, impuseram-se. Sempre com humildade, sempre com as falsas demonstrações de bondade, usando e abusando da doutrina de seus fundadores, sintetizadas na pretensa existência de um salvador que morreu pela humanidade numa cruz ultrajante. Por isso mesmo, sempre glorificaram a morte. Afinal, o tal salvador mitificado e mistificado retornou dos mortos e voltará no fim dos tempos para julgar a humanidade e levar os bons cristãos para a salvação eterna, enquanto jogará todos os demais na danação do inferno. Porque merecem as chamas eternas todos aqueles que não o seguirem. Quanta bondade, penso eu!

E então, lembro as fogueiras santas. Por qualquer motivo ou por motivos torpes (para assenhorear-se de seus bens, por exemplo), judeus e não judeus foram queimados, acusados de bruxaria, de heresia, de incréus. E como eram bonzinhos, esses cristãos: se o condenado não encontrasse um carrasco gentil que os matasse antes de acesa a pira, queimavam-nos lentamente, o fogo subindo aos poucos, atingindo primeiros os pés, depois as pernas, as coxas, o ventre, numa agonia que durava horas e horas, para alegria das multidões de cristãos embrutecidos pelo cheiro da carne humana, pelos gritos da bruxa ou do judeu que agonizava lentamente, enquanto a casta sacerdotal orava (ou rezava – escolha você a palavra mais de seu vocabulário, ó cristão que me acaso me lê) pela sua alma.

Torrava-se o corpo, mas salvava-se o espírito, para gáudio do deus cristão, sempre pronto a perdoar, na última hora, àquele que se arrependesse de pecados muito bem ordenados e escolhidos por ele.

Bonzinhos, muito bonzinhos, os cristãos de antanho. Com uma história de perseguições, assassínio, morticínios, torturas e crueldades mil, tudo em nome da fé, que nem mesmo os piores ditadores da humanidade,como Hitler, por exemplo, têm em seu currículo.

E hoje estão aí: erguem templos, continuam sendo humildes e bondosos, praticam a caridade com uma pequena parcela do que realmente extorquem de seus seguidores, ficam ricos, têm mansões em Miami e jatinhos para sua pregação aos quatro cantos do mundo, espalham-se como raiz de mandioca, com sua arrogância mal disfarçada em ternos Armani, todos muito bem postos na vida, enquanto os crentes, os seguidores, o populacho grita e berra por salvação em troca do dinheirinho suado que financia a vida nababesca da casta de pastores, de dirigentes que compram e mantêm redes de televisão, de jornais, de revistas.

Continuam bonzinhos, os cristãos de hoje. E já que não podem mais acender fogueiras, assar a carne dos que não contribuem para o seu botim, atormentam nossa vida com suas pregações histéricas. Quebram o silêncio da noite, para se fazerem ouvir por um deus surdo, mudo, cego, insensível e estúpido que se esconde aonde, hem? Aonde? Talvez não no cu do conde, mas nos cus muito bem lavados desses malditos pastores, bispos e não sei mais quanta hierarquia eles inventam, a tirar nosso sono para arrancar dinheiro dessa gentalha estúpida e ignorante, que compra a peso de ouro um lugar no céu dos idiotas.

Fechei a janela, antes que o Mike acordasse e tivesse eu de lhe dar explicações por incomodá-lo numa noite fria de primavera, quando o vento cortante fazia balançar a copa da pitangueira coberta de frutos. E eu estava muito, mas muito, mesmo, preocupado em que voltassem a berrar os crentes da igrejola caça-níqueis perto de minha casa. Mais preocupado, porém, com a revolta de minha companheira, que poderia voltar a reclamar e não sei, sinceramente, até onde vai o verniz civilizatório dessa gente que tem tão longa tradição de...

Melhor parar mesmo por aqui. Boa noite, Mike – ainda balbuciei, pensando no sono de justo de meu macaquinho.

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