terça-feira, 24 de agosto de 2010

RELIGIÃO É DISCURSO, E NADA MAIS

(arte chinesa)


Estava seco o ar. Calor em pleno inverno. Não conseguia conciliar o sono, como se dizia antigamente. Levantei-me, acendi as luzes do quintal. Mike apareceu, sonolento, de cara feia.

- Não quero papo, disse ele, piscando um pouco os seus olhinhos redondos. Vou comer um pedaço de mamão e dormir.
- Nada disso. Estive pensando umas coisas e queria sua opinião.
- Minha opinião, nessa altura da noite, e com esse tempo, de nada lhe valerá...
- Não importa. Ouça, apenas. Se você achar que é besteira, não diga nada. Ou melhor, vire as costas e vá dormir...
- É o que eu vou fazer...
- Não! – foi quase um grito.


Mike voltou-se, acomodou-se um pouco e ficou me olhando. Sua fisionomia não era nem de enfado nem de desgosto. Era, apenas, de paciência.

- Está bem... já perdi o sono mesmo.
- Vou tentar ser curto e grosso.
- Grosso você já foi, ao me acordar...
- Não seja ranzinza, Mike... Está bem: ouça. Estive pensando nisto: o deísmo, a crença em deuses, as religiões são apenas discurso.
- Hm.... isso vai acabar no que eu sei em que vai acabar...

Ignorei o comentário de Mike. Já estava viajando nas idéias, mas tentei resumir.

- Sim, discurso. Quando a bíblia diz: deus criou o mundo, isso não tem nenhum compromisso com a realidade. Temos uma categoria absurda como sujeito e um predicado que não significa abolutamente nada. Como ninguém pode provar a existência de deus, também não se pode provar que ele não existe. Então, deus é apenas uma palavra, um signo, sobre cujo significante eu posso escrever zilhões de definições, escrever bilhões de tratados, inventar milhões de qualidades ou defeitos. A partir do momento em que assimilo o signo deus, instala-se em minha cabeça um processo desencadeado na pré-história do homem, um conceito de algo que não se pode definir exatamente o que seja, ao contrário, por exemplo, de uma pedra, uma flor, um ente, enfim, concreto, do qual eu tiro características, para defini-lo. Deus, não. Eu aceito características e aponho ainda mais as minhas próprias necessidades de crença e da cultura onde vivo. Então, deus se torna aquilo que eu imagino que ele é, não o que ele possa ou pudesse ser na realidade. Realidade, aliás, que não existe. Porque eu a crio, ela se torna uma verdade. Daí, no predicado cabe qualquer idiotice, como dizer que criou o mundo, ou destruiu a abóbora, ou escravizou a lesma. Tudo se torna possível, a partir da palavra deus: o absurdo cria absurdos, mas chancelado pelo sujeito, todos os discursos são possíveis, desde que se estabeleçam alguns princípíos lógicos. Porque, se eu disser que deus escravizou a lesma, é crível, mas não é lógico. Para tornar esse discurso lógico (e isso é possível), eu preciso criar, inventar uma teogonia para a lesma. Assim, o absurdo passaria não apenas a ser crível, como também lógico. E tudo faria sentido. E uma nova religião poderia surgir, a partir da simples palavra lesma... Entendeu? Por isso, eu digo que religião é apenas discurso. Sem o verbo, não há religião e também não há verba para sutentá-la...
- Espere aí – interrompeu o Mike, o trocadilho sem verbo não não há verba é bom, mas misturar discurso com dinheiro já é forçar a barra...
- É que eu acho que a religião é o maior business que o homem já inventou. Deixe-me explicar...
- Você não vai explicar nada, por hoje. Entendi o que você quis dizer com o fato de religião ser apenas discurso... e você tem razão. Mas deixemos o business para outra ocasião, está bem? Boa noite.

Virou-me a costas o macaquinho mal-criado, entrou em sua casinha e eu fiquei mais um pouco por ali, pensando. Mas também o que vinha à minha cabeça, àquela altura, era só mesmo asneira. Como pode ser asneira tudo o que já pensei até aqui. Paciência: melhor pensar asneira do que não pensar nunca, imaginei o Mike dizendo isso, com seu jeito irônico. Fui dormir.

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