sexta-feira, 20 de agosto de 2010

REFLEXOS DA LUA AZUL

(Caspar David Friedrich)


Na noite seguinte, sentia-me doente, com gripe. Mesmo assim, ao ouvir ruído no quintal, entendi que o Mike me chamava e fui até lá. Levei-lhe um pedaço de bolo de milho, para uma boquinha noturna.

- A noite está bonita, com essa Lua, comentei.
- Você ainda está impressionado com a Lua Azul. Esqueça. Esqueça a Lua, as estrelas, a noite que você diz estar bonita. A natureza não é bela. Apenas existe. Beleza é conceito que os homens inventaram, para categorizar coisas.
- O que você está dizendo? Que a beleza não existe? Como assim? E esta noite estrelada? Não é mais bela que uma noite fechada, nevoenta, chuvosa? E um pôr-do-sol? Não é um belo espetáculo?
- Não. A noite fechada, nevoenta ou chuvosa, como você diz, é tão bela quanto uma noite de Lua e de céu estrelado. Ambas existem, porque são necessárias ao ciclo da vida. Não há beleza nem feiúra na natureza: há apenas a natureza a manifestar-se. O olho humano inventou linhas retas e as considerou belas, uma vez. O mesmo olho inventou linhas curvas e as considerou belas, noutro dia. Porque assim é que deve ser, ou melhor, é assim que não deve ser: tanto existe a linha reta quanto existe a linha curva. Ambas são apenas o que são e nada mais. Arte é apenas a submissão do homem a seus critérios subjetivos. O que existe, na verdade, é a técnica, apenas a técnica, quando se trata de obra humana; mas, na natureza, isso não vale. Na natureza tudo segue como deve ser, em função da vida e da existência. Nada mais.
- Puxa, Mike! Você está meio azedo, hoje...
- Não. Não estou azedo, apenas não gosto da síndrome da Lua Azul, desse maravilhamento que você tem no olhar diante de um brilho lunar que se repete a zilhões de anos, sempre o mesmo e sempre diferente: cada noite uma Lua; cada noite, um olhar diverso. E isso, sim, faz a diferença, não a categorização em: - que bela noite! ou: - que noite horrorosa, que vocês, humanos, fazem.

Depois desse puxão de orelhas, até perdi o tesão pela Lua que brilhava lá em cima... Ia pensar: que bela Lua, mas recolhi até mesmo o meu pensamento e fui dormir.

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