domingo, 22 de agosto de 2010

PLANETA AZUL

(Adedos - night at the beach)

De tempos em tempos, recebo e-mails contendo fotos da Terra. Fotos maravilhosas, tiradas por potentes câmeras localizadas em satélites. Mostrei algumas delas ao Mike, numa noite qualquer. Reação dele: uh!



- Uh! Mike? Você não acha que nosso planeta é muito bonito, visto assim do espaço?
- Uh! Sim, respondeu ele. O que não quer dizer que não ache belas as fotos. Mas são apenas fotos: a natureza é sempre bela, vista por microscópio ou vista pelas lentes de um satélite. Mas a Terra é apenas um lugar, um lugar para se viver. Há perigos na natureza, e também são belos esses perigos. A vida é que um espetáculo, não fotos de satélite.


- Mas você não acha que a divulgação desse tipo de mensagem não conscientiza o homem de que ele precisa proteger seu habitat?
- Bobagem. O homem, como todo animal, é um predador assumido.
- Isso é puro pessimismo...
- O homem apenas pensa que pode tudo, mas não pode.... a natureza tem suas leis, seus movimentos, que podem não ter nada a ver com a vontade humana.
- Do que você está falando, Mike?
- Estou falando de uma natureza que se modifica a cada instante, que cria e destrói a vida a cada momento, que não pode ser domada: o planeta Terra, onde vivemos, é apenas um minúsculo grão de areia na teia do Universo... Somos menos que nada, na ordem universal. Bobagem querer que o homem se civilize a ponto de salvar o planeta. O homem não pode salvar o planeta, porque a vida não quer ser salva: ela começa e recomeça sempre, em qualquer lugar, em qualquer momento, sem noção de geografia ou de tempo, porque no Universo não há um lugar, assim como não existe um tempo: tudo é um todo contínuo, sem divisões, sem pressa, sem calma, sem nada, apenas é.
- Você está falando por metáforas?
- O homem é apenas um elo na cadeia da vida. Um elo frágil, tão frágil como qualquer molécula. Não existe futuro para a raça humana, como não existe futuro para a vida, apenas presente. Nesse aspecto, até que idolatrar a tal beleza (que é um conceito absurdo) da Terra vista do espaço, pode até fazer um certo sentido, o sentido da ignorância do que seja realmente a vida.
- Bendita ignorância, disse-lhe eu.

E ia tentar continuar o diálogo, mas o Mike me interrompeu, de forma brusca e até mesmo puco educada.

- Chega por hoje, já nos dissemos asneiras demais: filosofia me cansa. Cosmogonias, então, só servem para ocupar o oco do cérebro, nada mais. Não saber é melhor do que iluminação. Vou dormir. Até amanhã.

Fiquei ali, contemplando a cópia das fotos da Terra, olhei para o céu estrelado, tentei imaginar o Universo e também fui dormir. Afinal, aquelas mesmas estrelas que acabara de ver podiam nem mais existir! Sempre que olhamos o céu, vemos o passado. Sempre que vemos o passado, foge-nos o futuro e sempre que nos foge o futuro, pensamos asneiras. Dormir pode ser a fuga de tudo, porque o sono a tudo tranquiliza. Principalmente nossas inquietações cosmológicas ou cosmogônicas.

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