sexta-feira, 6 de agosto de 2010

PENSAMENTOS ATEUS... DO MIKE!

(Michelangelo - adam)


Era natal. Havia o clima de sempre, no ar: fogos, que o Mike detesta; a falsa idéia de confraternização; o cheiro de comida, muita comida.

Fui ao quintal, para respirar um pouco. Afinal, estava bastante quente. Acabei tendo de ouvir o que eu jamais pensei que ouviria do Mike, sendo ele bastante econômico em seus comentários. Deduzi que teria sido o estouro de foguetes que o irritara. Porque, assim que puxei papo, ele desandou a falar:

- O que é preciso ficar claro: não se pode ser complacente com a religião, começou ele.
- Não entendi: explique.
- Os conceitos deístas já tiveram sua vez. – E, diante de minha surpresa: - Levaram a humanidade a dilemas filosóficos e éticos absolutamente sem saída. Porque não têm respostas para o homem. Nunca tiveram. Foram baseados numa metafísica podre em sua origem, ao sistematizar o inefável, o inexistente; ao inventar categorias invisíveis e dividir o mundo entre o mal e o bem. Não há mal e bem na natureza. Não existe mal e bem no homem. Há apenas ações que podemos considerar pertinentes ou não pertinentes ao grau de civilização de uma determinada sociedade, num determinada momento histórico, num determinado território físico.

Puxei um banquinho. Sentei. Suspirei e pedi:

- Continue, sou todo ouvidos...

E ele não se fez de rogado:

- Não existe um mundo além do físico. Não existem transcendências além da matéria. Não existe nada que se possa aproximar da essência do que quer seja. A metafísica, o transcendente, a coisa essencial foram invenções de quem não dominava ainda a compreensão do mundo.

- Você esta falando dos filósofos metafísicos, eu interrompi.

- Sim, deles e de todos os que vieram depois – completou o Mike. E acrescentou, quase com raiva: - O homem não pode continuar curvando-se a deuses absurdos. Ponto. Religião não é uma forma de conhecimento. Ponto. Religião é apenas uma absurdidade obscurantista, nada mais. Portanto, não há razão, nenhuma razão (e emprego esse termo no seu sentido mais puro, de racionalismo) em querer ser complacente com as religiões. Todas elas, sem absolutamente nenhuma exceção, são excrescências do pensamento humano. São desvios do pensamento lógico e da compreensão da natureza.

- Espere, interrompi mais uma vez. – Preciso de um tempo para pensar sobre isso. Além disso, estão me chamando para a ceia. Podemos continuar nosso papo mais tarde?

- Mais tarde, você estará bêbado e não vai entender nada, disse o Mike. A gente se fala amanhã, ou depois, quando essa merda toda de natal tiver passado.

- Está bem. Quer alguma coisa para comer?

- Eu só queria uma fatia de rabanada. Você pode trazer pra mim?

- Claro, espere um pouco.

Trouxe-lhe a iguaria que, aliás, eu também aprecio muito. O Mike me olhou satisfeito, empapuçou-se com a rabanada e foi dormir. Eu, bem, eu fui comemorar o natal... afinal, ninguém é de ferro. E deus que nada, o melhor mesmo é comer e beber bastante, para celebrar o nascimento de quem a gente nem sabe direito se nasceu, quanto mais se disse toda aquela bobagem que lhe atribuem.

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