domingo, 8 de agosto de 2010

PENSAMENTOS ATEUS... DO MIKE (II)

(Portinari - Brodowski, paisagem)


O natal passou. A ressaca, também. Retomei, alguns dias depois, o diálogo com o Mike. Tinha pensado muito no assunto. Provoquei-o:

- Os macacos têm algum tipo de religiosidade? Acreditam em algum tipo de deus?

- Seria ridículo – devolveu-me – um deus dos macacos, você não acha?

-Tem razão, seria ridículo.

- Os homens inventaram um deus criador por pura arrogância – continuou o Mike. Porque não se aceitam como participantes, como nós, de uma cadeia evolutiva. Querem ser a criatura suprema da criação, a imagem e semelhança de um deus qualquer. Isso não é nem um pouco racional. É pura estupidez.

- Concordo plenamente com você Mike. Embora seja minoria, uma escassa minoria, entre os meus semelhantes, penso (e tenho certeza de que estou certo) de que não há um criador, então não há criaturas. Somos todos, seres humanos e demais seres viventes no universo, categorias diversas de um mesmo cadinho de vida. O homem não é o ser superior, porque não sabemos para onde ele evolui. O homem é apenas uma experiência que, até agora, tem dado certo no processo de tentativa e erro da natureza. Mas, não podemos afirmar que ele seja o coroamento de um processo. Porque, na evolução, não há o conceito de progresso ou melhoria, mas sim de adaptação. Se o homem conseguir se adaptar à natureza, sobreviverá. Digo “se”, porque sua história ainda é muito recente para termos qualquer tipo de certeza quanto ao seu futuro.

Mike que, até esse momento, comia um bom naco de banana prata, bem docinha, que lhe levara, olhou para mim com seus olhinhos redondos e irônicos. Julguei ver em sua carinha um quase sorriso de satisfação. Mas deve ter sido ilusão. Porque, como todos sabem, macacos não riem. Mas que ele estava satisfeito, disso não tenho dúvidas. Tomou a palavra, entusiasmado:

- Desviamos nosso assunto inicial, religião, para criação. Embora sejam correlatos, eu gostaria de continuar nosso papo anterior.

- Vá em frente - disse eu.

Mike não se fez de rogado, principalmente porque lhe trouxera, junto com a banana, uma porção de sementes de girassóis, que ele adora. Entre um estalido e outro da abertura dos girassóis secos, ele retomou seu raciocínio:

- Religião não é o ópio do povo. Religião não é um conjunto de regras morais ou éticas. Religião é um desvio do pensamento, uma criação equivocada do homem. E, sob esse aspecto, não há religião melhor ou pior. Há apenas um conjunto de conceitos estúpidos e absurdos que tomaram, por meio de um sistema eficiente de apropriação da mente ainda primitiva do homem, a maior parte da sua consciência, para se tornar um dos aspectos mais tenebrosos do obscurantismo. Qualquer contemporização, de filósofos, pensadores, cientistas, para com os conceitos deístas, no sentido de admitir qualquer conjunto de valores éticos provenientes de livros ditos sagrados de qualquer religião, tem sido um grande equívoco.

Notei que ele se exaltava um pouco, e chamei sua atenção:

- Vá com calma, Mike, você está muito agitado...

Não me deu ouvidos. E continuou:

- Não há qualquer possibilidade de o pensamento deísta encontrar saídas éticas para o homem. É um pensamento esgotado. Contra ele tem de se levantar todos os verdadeiros interessados na despoluição do pensamento humano. Vocês, humanos, não podem ter medo de queimar todos os altares, de destruir todos os ícones, de renegar todo esse lixo cultural proveniente do pensamento deísta. Vocês têm, muito além desses conceitos obscurantistas, coisas bem mais importantes com que se preocupar.

- Você está sugerindo uma guerra contra o deísmo?

- Não, claro que não. O combate, o grande combate às idéias deístas, se restringe àquilo que ele deve ser: contra as idéias, o pensamento, os conceitos, a filosofia, a falsa moral e a falsa ética do deísmo. Mesmo quando falo em destruir todos os altares, isso é apenas uma metáfora. Porque não se pode inaugurar um nova época com conceitos iconoclastas, com atos de vandalismo ou novas formas de barbárie. Apenas e tão somente o combate às idéias, nunca às pessoas.

- Mas - redargui, meio sem jeito – dizem que a religião é o freio do homem... que ele não vive sem crenças. O que colocar no lugar da religião? A ciência?

- Ora, meu caro, não há o que se colocar no lugar do pensamento deísta, porque não existe absolutamente nenhuma necessidade de se colocar algo no seu lugar. Já o homem tem com que ocupar sua mente com milhões de outros problemas ligados à sua vida na Terra ou em outros planetas, questões concernentes à sua sobrevivência e ao seu futuro. Porque, também, não será a ciência o substituto do pensamento religioso. Ciência é apenas um processo, um meio de descobrir o mundo, não uma filosofia de vida. Filosofia de vida é ecologia. É respeito. É convivência.

E concluiu, enfático:

- Lutar contra o pensamento deísta é despoluir o homem de um de seus maiores equívocos. E prepará-lo, agora seriamente, para enfrentar os desafios de uma convivência que não seja predadora, mas respeitosa e ecológica, para si e para o mundo em que vive.

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