sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O QUE É, MESMO, FELICIDADE?

(Abdalieva Akzhan)



A noite estava um pouco fria. Saí, mesmo assim, para escovar os dentes, contemplar as estrelas e ver se estava tudo bem com o Mike. Ele estivera doente e ainda se recuperava. Perguntei-lhe:

- Você está feliz, Mike?
- Ora, tanto quanto você, quando come frango com ora-pro-nobis...
- Ih! Está mal humorado, comentei...
- Não, não, isso não é mau humor, é apenas a constatação de um fato que vocês, humanos, não percebem: não existe felicidade!
- Como? Não existe felicidade? Então, para que nós nascemos?
- Aí é que está o busílis: nós nascemos para viver, apenas isso.
- Claro, nascemos para viver, mas e a busca da felicidade?

Então, o macaquinho coçou as barbas e olhou para mim, com olhos de “coitado desse cara, não manja nada da vida”. Quase pude vislumbrar um leve sorriso no canto de sua boca, que comia, agora, gostosamente, um pedaço de mamão papaia que lhe levara.

- Vou lhe explicar uma coisa, disse ele, pausadamente. Felicidade é uma categoria metafísica, isso é, uma coisa inventada por algum estúpido filósofo que não entendia nada da vida e, por isso, precisava buscar no além explicações para aquilo que, embora esteja, debaixo de nossos narizes, nós não entendemos: que a vida, o mundo, é isto aqui. Nada mais. Que a vida, sim, é que é o seu próprio grande milagre.
- Ahaha! Então você reconhece que a vida é um grande milagre! – cortei eu, com um pouco de sarcasmo.
- Eu falei milagre no sentido figurado, para você me entender melhor...
- Está me chamando de burro?
- A vida existe em si mesma, prosseguiu o Mike, ignorando minha pergunta. A vida não precisa de explicações metafísicas. Se eu olho uma pedra, tenho que sentir, perceber com meus sentidos que aquilo é só uma pedra e nada mais. Buscar a essência da pedra, a pedra primeva, é estupidez de metafísicos e idiotas. Assim...
- Espere: eu concordo com você. Mas e a felicidade?
- Então, a felicidade é um estado abstrato, um além do momento em que nós nos sentimos plenos de vida; a felicidade é um extrapolar de qualquer alegria e satisfação, um ente abstrato, tão abstrato quanto a essência de uma pedra. Ou seja, um ente metafísico. E, como tal, não existe. Só existem, mesmo, os momentos de satisfação que temos, quando nos integramos de fato à vida e nos damos conta de que tudo o que nos rodeia, inclusive nós mesmos, fazemos parte desse imenso cadinho em transformação que é o mundo, o mundo rico de tudo o que precisamos para viver... Nada mais.
- Nada mais?

Mas o Mike já tinha se recolhido a seus aposentos. Talvez um dia ainda voltemos ao assunto. Mas acho que ele tem razão: felicidade! Viver é apenas viver, sem nenhum outro objetivo senão este. Por que inventamos essas bobagens? Acho que buscar a felicidade, como sentido da vida, é que realmente nos torna infelizes, por mais estúpida que possa parecer essa observação...

Recolhi-me, também, que a friagem da noite já me arrepiava o corpo. E, nesse caso, uma cama macia e um cobertor quente são sempre sinais claros de satisfação. Ou daquilo que chamamos felicidade.

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