terça-feira, 10 de agosto de 2010

O DIABO ESPREITA ATRÁS DO PÉ DE ORA-PRO-NOBIS

(Mia Makila)


Depois de longo perído de chuvas, o céu estava claro e havia um disco grande e redondo iluminando a noite. Saí para conversar um pouco com o Mike. Mas ele não estava muito disposto a conversar. Acho que a monotonia das chuvas dos dias anteriores deixara-o deprimido. Ou dormira tarde, por causa de uns fogos não muito distantes, comemorando não sei o quê. Mike odeia estampidos. Pegou um naco de banana, sua boquinha normal da noite, e esperou que eu dissesse alguma coisa.

- Os macacos acreditam em demônios, em seres malignos?

Mike arregalou os olhos. Insisti:

- Sabe, é que o capeta, o demônio, acho que está meio em baixa ultimamente entre os humanos... só os crentes ainda faturam algum, expulsando demônios em seus cultos...

- Para que demônio, se tanta maldade já se pratica em nome de Deus? – ironizou o Mike.

- Como?

- O homem não precisa de demônios, de capetas, do satanás... deus, o seu deus, o deus inventado pelos homens tem praticado tantos horrores, que é absolutamente desnecessário que se jogue a culpa dos crimes do mundo numa figura tão bizarra...

- Então, deus tem duas faces: a do mal e a do bem?

- Não, absolutamente, não. A acreditar nisso, cairíamos no odioso maniqueísmo. Deus é um só: aquele que os homens inventaram, com todas as nuances de maldade e bondade de que homem é capaz. Porque o homem, sim, é mau e bom ao mesmo tempo. Nele estão todas as desgraças do mundo e todas as maravilhas também...

- Não entendi bem, Mike, você...

- Olha, ali no fundo: atrás do pé de ora-pro-nobis...

- Não estou vendo nada: é só o vento, balançando as folhas...

- Pois, é: nossa discussão sobre deus e o demônio é como o vento balançando as folhas. Ou seja: é só o vento balançando as folhas, não leva a nada. Vou dormir. Até amanhã.

Fiquei sozinho, a contemplar a lua branca lá em cima, um espetáculo raro, numa cidade tão grande e tão cheia de medos e maravilhas... Um ventinho miúdo soprou. Arrepiei. Fui, também, dormir.

Amanhã vou colher um pouco de folhas de ora-pro-nobis e fazer um bom frango para o almoço, pensei.

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