quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A LUA AZUL

(Cláudio Dantas)



A noite estava clara. Havia, no céu, uma lua sem tamanho. Saí para contemplá-la, pé ante pé, para não acordá-lo, ao Mike.

- Veio ver a lua azul?

Não pude deixar de perceber a ironia na observação do Mike. Eram 31 de maio e a imprensa destacara a segunda lua cheia do mês, a lua azul. Um fenômeno raro, mas totalmente idiota, pois dependente de um calendário anti-natural, anti-lunar, um calendário artificial.

- Você me assustou, seu macaquinho chato!
- Também perdi o sono, retrucou ele. Ouvi tanta bobagem sobre a lua azul, o dia inteiro, que fiquei pensando em como o homem inventa categorias idiotas e cultos absurdos.
- Já vi que você está amargo, hoje...
- Veja: para que eu, um simples macaco-prego, existisse, quantos bilhões de seres nasceram, viveram e morreram? Você tem idéia? Claro que não, mas isto é a vida: um continuum, um bolo imenso a fermentar nas entranhas, nos meandros, nos interstícios de cada célula, de cada ser, de cada espécie...
- Complicou, tudo, Mike... Que história é essa de interstícios? De meandros?
- Eu sou muito grato a você e todos aí da casa, pela minha vida. Muito, mesmo. Já não devia existir desde os primeiros momentos de minha vida, quando fui rejeitado por minha família, com menos de quinze dias...
- Puxa, Mike, que memória você tem!
- Vocês me criaram, cuidaram de mim. Quando fiquei doente...
- Aquele AVC!
- Isso, aquele acidente vascular cerebral teria sido fatal em qualquer outra circunstância. Mas vocês me levaram ao médico, me deram remédios. A medicina dos macacos é muito, muito limitada. Conhecemos umas poucas ervas para dor de barriga, para uma ou outra indisposição. Doença é sinal de morte. Por isso, todo animal doente é abandonado para morrer. Vocês, homens, têm essa grande vantagem: lutam contra a morte.

Mike fez uma pausa, olhou para a lua, comeu um pedaço de mamão. Suas palavras me deixaram comovido. Então, ele continuou:

- Por que vocês, humanos, lutam contra a morte e nós, os animais, não?

Mais uma pausa. Dessa vez, dramática.

- Porque, tornou ele, nós não temos consciência da morte. Só percebemos que vamos morrer, quando estamos morrendo. E aí, é tarde demais. O homem, ao contrário, desde os primeiros vagidos é condicionado, por suas categorias metafísicas, a pensar que é um ser destinado a morrer, porque a vida foi dada por um deus e por ele será levada. Aliás, para o homem, morrer é passar para um outro estágio de existência, no reino desse deus ou de seu inimigo, o satã. Então, o homem vive a vida pensando na morte...
- Talvez seja esse pensamento louco uma das poucas vantagens da crença deísta, interrompi.
- É verdade. Mas não é uma vantagem tão grande como se poderia imaginar: ao viver pensando na morte, o homem, muitas vezes desvaloriza a vida e deixa de viver.
- Você tem razão, Mike. Tornamo-nos visionários de ilusões...
- E como visionários, não percebem esse intrincado jogo de tecer que é a vida. Cada ser vivo é fruto da vida e da morte de bilhões de outros. Há, sim, uma certa permanência, ou eternidade, para usar um termo que você possa compreender, mas é uma eternidade chamada vida, ou seja, eu, um macaco-prego existirei enquanto houver macacos-prego no mundo. Minha existência está condicionada à existência da minha espécie, ao mesmo tempo que eu, um indivíduo, um ser ínfimo no grande oceano da vida (impossível fugir dessas metáforas), também condiciono a existência de minha espécie. Portanto...
- Entendi: você quer dizer que toda vida é importante para a existência da própria vida.
- É. Mais ou menos isso. Mas já estou cansado, vou dormir.

Nem se despediu, o mal humorado Mike, nessa noite de lua azul. E eu fiquei ali, pensando mais uma vez em quão estúpidas são as nossas categorizações metafísicas.

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