segunda-feira, 16 de agosto de 2010

DE MODERNISMOS E PÓS-MODERNISMOS

(Siegfried Zademack)





Era tarde da noite. A lua, imensa, brilhava. Tempo bom, temperado. Saí um pouco, para conversar com o Mike. Também ele estava insone.

- Uma lua pós-moderna, brinquei.
- Não brinque com uma bobagem dessa, retrucou o Mike. Você não sabe que as palavras têm mais poder que os fatos que elas traduzem?
- Como assim?
- Veja: modernismo e pós-modernismo. São conceitos absolutamente vazios, mas utilizados por todos. O que é moderno? É tudo o que é contemporâneo. Platão era moderno, na época dele.
- Agora é um velho gagá...
- Deixa o Platão brincar lá na república dele, que o buraco é mais... bem, é em outro lugar.
- Explique, não entendi.
- Voltemos ao conceito de moderno: o homem que se diz moderno, só o é em termos tecnológicos, ou seja, há todo um super-aparato de ciência, de cientificismo, que criou uma quantidade absurda de objetos de desejo e de consumo, ao mesmo tempo que buscou facilitar a vida de quem consegue consumi-los, o que é apenas uma parte da humanidade, e não é a maior parte. O homem criou objetos fantásticos, desde o primeiro motor a explosão até o microchipe, que permite multiplicar ao infinito a capacidade humana de interferir no mundo, mas continua baseando sua civilização nos mesmos conceitos niilistas de religiões falidas e filosofias ultrapassadas. Mudou a forma, aquilo que nós vemos, em termos de civilização, mas a barbárie é a mesma da época dos romanos. Esfola-se, mata-se, tortura-se, estupra-se tanto quanto em qualquer outra época. O modernismo humano é só uma questão de jeito de administrar os bens que o homem produz. Nada mais. Então, meu caro, falar de pós-moderno torna-se uma asneira construída em cima de outra. Uma bobagem, apenas uma bobagem.

Fiquei um pouco intimidado com a verborragia do Mike, geralmente tão comedido, ou tão pouco disposto a soltar tudo o que pensa assim, num turbilhão. Mas, tentei, assim mesmo, cutucá-lo:

- Mas há uma civilização sendo construída...
- Que civilização? A civilização do consumo? A da tecnologia? Tecnologia não significa, absolutamente, civilização. Quando o homem primitivo descobriu as ferramentas, ele evoluiu, sim, em termos de facilidades, mas continuou sendo primitivo por milhares de anos. E esse homem primitivo ainda está muito vivo dentro do homem atual, que se diz civilizado, mas que, na verdade, tem apenas um verniz muito fino de civilidade. Enquanto existir dentro do homem o instinto assassino, não há civilização no seu conceito mais puro. Portanto, esqueça isso de homem moderno, de homem civilizado: existe o homem tecnológico, o homem que usa a inteligência para conquistas fundamentais para a sua história, mas que, ainda, em seu íntimo, não saiu da idade primitiva do cacete e da borduna.
- Como você é pessimista, Mike.
- Eu não sou pessimista. Acredito que vocês, humanos, ainda vão chegar à civilização. Porque já há homens bastante civilizados entre vocês. E não são poucos. Mas ainda minoria. Quando esses homens um pouco mais civilizados se tornarem maioria, quando se implantar de vez a filosofia do respeito à vida humana, ao meio ambiente e a si mesmos, os seres humanos começarão a construir, de verdade, uma civilização. Que não será perfeita, claro, mas onde um homem ou uma mulher poderão, enfim, viver plenamente, sem medo de sair às ruas, sem balas perdidas, sem grandes diferenças sociais, sem a sombra do assassinato e do genocídio...

Mike jogou fora um restinho de banana que ele comia, tranquilamente, enquanto me falava tudo aquilo, virou-me as costas e foi para sua casinha, dormir. Fiquei ali por mais alguns instantes, fitando a lua, pensando em suas palavras. Não havia o que argumentar. Também me recolhi, na minha insignificância de pretenso homem pós-moderno. Hélas!

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