sábado, 28 de agosto de 2010

CONSIDERAÇÕES DE UM MACACO SOLTEIRO

(Guignard - família do fuzileiro naval)





O frio bateu forte. Saí um pouco ao quintal, para ver se estava tudo bem com o Mike. Ele me aguardava.

- Não sente frio? – perguntei.
- Não tanto quanto vocês, humanos. Repara minha pelagem.

Sim, ele está, agora, com uma pelagem mais densa, mais brilhante, preparado para o inverno. Mais bonito, também.

- Está com ar preocupado, por quê?

Mike não respondeu de imediato. Pegou um pedaço de mamão que lhe entregara, subiu ao lugar mais alto de sua casa, começou a comer e, pouco a pouco, foi-me revelando suas considerações.

- Sou um macaco solteiro. Nem conheci minha família biológica.
- Sua família humana sempre o tratou muito bem, Mike. Todos o amam muito, aqui...
- É, eu sei. Não tenho queixas. Mas minha vida contraria o lado grupal de minha raça. Nós, macacos, vivemos em bandos, você sabe.

Assenti. E senti que, dessa introdução, algo mais estava piparoteando na cabecinha do Mike. Puxei um pouco mais a gola do casaco e esperei, pacientemente, que ele terminasse o pedaço de mamão.

- E respeitamos muito a família. Não há, entre nós, casos de maus tratos a membros da família, depois de um período de adaptação, de percepção e de acolhimento.
- Mas... muitos de vocês enjeitam os que não terão condições de sobrevivência.
- Sim, é uma lei da natureza. Somos assim. Se nasce uma cria defeituosa, a mãe abandona logo esse ser, para não sofrer depois. Não há maldade. Apenas necessidade.
- Onde você quer chegar com esse papo? – provoquei.
- Depois de acolhido, no entanto, o novo membro, todos se revezam na sua proteção. Até que ele ganhe independência. Como entre os humanos, a família é a célula de nossa organização social. Mesmo depois de cada filhote seguir seu destino e constituir sua própria família, os vínculos permanecem, dentro do bando.
- Mas ainda não sei aonde você quer chegar...
- Ouço coisas que me arrepiam. Coisas terríveis andam acontecendo com os humanos. Na família.

Arrepiei. Porque percebi que ele estava a falar de acontecimentos muito recentes. Esperei pela bomba que ele aprontava, mesmo com o frio corroendo meus ossos, ainda mais gelado agora.

- Vocês, homens, também constituíram sua organização social com base na família. Herança de nós, animais. Que está nos seus genes, nas suas lembranças mais primitivas. E vocês evoluíram para sistemas mais complexos de bandos. Tendo, no entanto, sempre a família por base. Agora, eu noto que estão estarrecidos com certos fatos que parecem acontecer com uma certa frequência no interior da célula-mater: maus tratos, incestos, assassínios. Indicam a deterioração de um tecido que devia proteger e que se transforma em armadilha.

Gelei mais com o gelo de suas palavras do que com o frio da noite.

- A família humana é muito cruel. Tem em seu bojo aspectos culturais pervertidos, que se acumularam em milênios de um desenvolvimento canhestro e estranho. Somos, os homens e animais, frutos de evolução. Mas vocês criaram o artifício de imaginar que são anjos decaídos. Eram perfeição e, agora, necessitam reconquistar um paraíso.

Passaram pela minha cabeça as crenças todas dos homens, sua luta interna entre o mal e o bem, entre o céu e o inferno, entre deus e o diabo.

- Esse conflito – proseguiu o Mike, como lendo meus pensamentos – fez do homem um ser que se equilibra entre forças precárias e contrárias, entre o animal evoluído que verdadeiramente são e o anjo decaído que imaginam ser. E isso, parece, está afetando sua sensibilidade tribal, seu ponto de equilíbrio para conter o lado animalesco e conviver com ele sem precisar desestruturar a célula base, a família. E então, vocês estão descobrindo algo terrível: estão descobrindo que a família humana não é mais o modelo ideal de proteção aos novos membros, não é mais a base sólida de sua estrutura social complexa.
- Você está dizendo que o modelo familiar humano não é mais o ideal?
- Sim, isso mesmo. O modelo familiar humano parece estar falido – ele me olhou nos olhos, com uma sombra de tristeza e de vivacidade. – Mas há algo ainda mais aterrador para vocês...
- O que pode ser ainda mais terrível? – o frio da noite entrando pelas mangas e pelas bordas de meu casaco.
- Vocês não têm nada, nenhum outro modelo, para colocar no lugar da família.

Baixei a cabeça, levantei a gola e fui para dentro de casa. Ainda ouvi, por algum tempo, os ruídos do Mike a procurar, entre os vários artefatos que ele tem em sua casa, mais algum pedaço de banana ou de mamão, para comer. Só depois de uns dez minutos é que ele aquietou.

Eu, nunca mais.

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