quarta-feira, 4 de agosto de 2010

CIÊNCIA E RELIGIÃO

(Caspar David Friedrich - two men contemplanting moon)


Verão. Noite quente. Fui ao quintal ver um pouco as estrelas, menos brilhantes com poluição da grande cidade. Não queria muita conversa, mas o Mike puxou o assunto:

- Vocês, humanos, quando olham as estrelas, pensam num deus, não é?
- Eu, não, Mike... estou muito distante de um pensamento deísta, você sabe.
- Mas, há gente que tenta unir ciência e religião.
- Você se refere ao desenho inteligente, ou plano inteligente, que tem aparecido por aí?
- Talvez, talvez.
- Isso é uma tremenda besteira.
- Também acho.

A conversa morreu ali. Estava com sono e não muito propício à discussão filosófica, principalmente sobre um tema que não leva a nada. Dormi. E sonhei. Sonhei, ora vejam só, com deus. O pai eterno estava diante de um dilema: queria construir um mecanismo complexo e não sabia como fazer todas as suas partes interagirem para fazer funcionar tal mecanismo. E esbravejava:

- Tudo devia ser como a roda: um círculo e pronto. Sem complicação, sem interdependências de elementos, tudo muito simples. Mas, um olho! Um olho é muito complicado: tem mil pequenos detalhes para fazê-lo funcionar! Eu monto de um lado e o outro lado não funciona, quando ambos funcionam, não consigo fazê-los interagir!

Só então percebi que, ao lado de deus, um senhor de longas barbas e olhar complacente dava boas risadas.

- Deixa disso, deus, você já fez muito ao criar o universo. Deixe os detalhes por minha conta, vai descansar...

- Ora, Darwin, vá você descansar... ou vá para o inferno...

Infelizmente acordei, suado com o calor. Mas fiquei pensando. Só mesmo para o inferno podia deus mandar o Darwin, o velho e agora tão combatido pelos criacionistas cientista que mudou o rumo do pensamento humano. Só mesmo para o inferno, que é, isso sim, uma criação divina.

Aí me lembrei do Mike, quando disse que o homem pensa em deus quando olha as estrelas. Mike estava enganado. O homem tem pensado em deus quando olha para coisas bem menos poéticas do que as estrelas. Há um grupo de pseudo-cientistas que, imbuídos da mais torpe filosofia neo-criacionista, embasados em argumentos metafísicos e tomistas e agostinianos, querem pôr mais lenha na fogueira agonizante do pensamento religioso. Porque a ciência tem lacunas, porque a ciência ainda não pode explicar tudo, porque o pensamento científico verdadeiro é muito recente, porque a ciência trabalha com tentativas e erros e, finalmente, porque para o verdadeiro cientista não há verdades absolutas, esses idiotas do pensamento metafísico inventaram o tal desenho ingeligente, ou plano inteligente.

Ele só é inteligente quanto à sua concepção como forma de enganar trouxas. Com argumentos falsamente científicos, querem aproximar duas coisas que não têm razão para serem aproximadas, porque são como água e fogo: ciência e religião.

Religião á algo inventado pela imaginação do homem. Baseia-se no postulado da fé. Só é religioso aquele que tem fé. Essa palavrinha é a explicação sutil e, ao mesmo tempo, fundamental do edifício deísta. Pode-se ter fé em qualquer coisa. Inclusive em deus ou deuses. E ponto final. Não se discute. Porque é uma categoria metafísica: aquilo que está além de qualquer explicação racional. Religião é irracionalidade. E ponto.

Ao passo que ciência é observação, pesquisa, busca. Que leva a caminhos que não se sabe aonde vão dar. O verdadeiro cientista não tem fé, não tem pré-conceitos: olha e avalia o que vê. Às vezes, vê errado. Ou avalia errado. Então, recomeça. Sem nenhum resquício de conceitos arraigados nem de idéias básicas ou fundamentais.


Todo religioso é, no fundo, fundamentalista: acredita em conceitos fundamentais. Ao contrário do cientista, que não tem nenhuma idéia mágica em que se apoiar, a não ser a observação e a avaliação da natureza.

Também, não existem vários tipos de religiosos: todos, absolutamente todos, são obscurantistas. Se uns são mais tolerantes do que outros, é por pura adaptação ao meio ou, ainda, por um pouco mais de verniz civilizatório em suas crenças absurdas. No fundo, no entanto, todos, absolutamente todos, têm certeza de que seu deus punirá, de alguma forma, aqueles que não têm fé.

Então, não se misture fé com ciência. E não entremos na jogada de marketing que é esse tal de desenho inteligente, ou plano inteligente. É sempre a mesma patacoada, para enganar trouxas e dar a impressão de que a religião ganhou foros científicos.

Uma bobagem, Mike, uma bobagem. Você tem razão: o homem precisa parar de olhar para a natureza e pensar em um deus.

Uma coisa não tem nada a ver com a outra: para justificar a existência de deus, fizeram-no criar a natureza, o mundo, quando o mundo (a natureza), através do homem, é que criou a divindade ou divindades.

E a divindade criou o inferno, para onde os criacionistas de todas as religiões nos mandam, já que são todos muito, muito bondosos e tolerantes...

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