segunda-feira, 2 de agosto de 2010

AINDA O HOMEM HIGIÊNICO

(Alma Tadema - who is it?)




A noite estava quente, muito quente. Saí para o quintal. Acabei acordando o Mike, que desceu para uma boquinha de mamão e banana. Fiquei por ali, à toa, tentando refrescar. Mike olhou para mim, com seus olhinhos redondos e, se não sorriu, pareceu-me ver um pouco de ironia no seu tom.

- Não entendi muito bem essa história de homem higiênico.
- Nem eu, respondi. Ainda estou enrolado nessa história. Foi uma idéia maluca que me surgiu.
- Que tal a gente aprofundar um pouco esse assunto, que pode ser interessante...

Ali ficamos por um bom tempo, trocando idéias. Dessa longa conversa, resultou o que se segue.

Simplificadamente, assim o homem traçou o seu destino: os neandertais dominaram o planeta por... sei, lá... 400 mil anos. Eram toscos e troncudos. Caçadores natos. Desapareceram. Expulsos pelos cro-magnons, mais esbeltos, mais inteligentes, não apenas caçadores, mas também criadores - de cultura, de agricultura, de animais. São os pais do homo sapiens sapiens. Na natureza é assim: experimenta-se. E muito. O que dá certo sobrevive e evolui. O que não dá certo desaparece. Os neandertais desapareceram, substituídos pelos mais sábios cro-magnons. Mas, há também, outra lei, na evolução: nada surge de repente, mas aos poucos, lento o tempo da transformação, lento o tempo do novo. Então, podemos supor, apenas supor, que os neandertais já traziam em si a origem dos cro-magnons, que lentamente aqui e ali começaram a aparecer e os suplantaram. Sem luta, sem mágica, sem trauma. Aos neandertais, o esquecimento, por sua não adaptabilidade. Aos cro-magnons, as batatas. As batatas e o futuro. Nós.

Também o chamado homo sapiens sapiens, que não é o topo da evolução, mas um elo, está gerando pouco e pouco o seu sucessor. Já disse que o chamo de homem higiênico. Se quiserem, homo diaeteticus. Portanto, já ele está entre nós, aqui e ali, espécimes que surgem em qualquer país, dentro de qualquer cultura, sem que os percebamos muito bem. Uma experiência que pode ou não dar certo. Para assegurar o futuro, como os cro-magnons, se futuro houver para nós, os neandertais de hoje. Que os de ontem, toscos e grossos, pelo menos conseguiram assegurar: não dizimaram toda a caça, não destruíram toda a floresta, não poluíram todas as águas.

Mas, quais seriam as características desse homem higiênico? As físicas, não sei, podem ser uma mistura qualquer de tons, de altura, de brilho dos olhos, que a natureza é pródiga em criar formas e cores. Mas as de caráter, torço para que sejam estas:


  • Ateísmo. Não pode o homem higiênico compactuar com qualquer superstição. Sua mente deve estar livre de cultos, de deuses, de anjos ou demônios.

  • Cientificismo. Crê no que está provado e comprovado. Sem endeusamentos de correntes, de idéias, de teorias. Mas não considera a ciência um avatar, apenas um meio seguro, dentro de princípios da ética e da cultura do momento e do lugar onde está inserida, de compreender o mundo.

  • Ética. Não o moralismo deísta, mas a ética da compreensão e do entendimento do que seja o homem e sua relação com mundo que o cerca.

  • Pacifismo. A beligerância, gene mal desenvolvido do homo sapiens sapiens, deverá estar totalmente erradicada do DNA do homem higiênico. Nada, absolutamente nada, justifica a guerra ou a existência de armas. Assassínio, para ele, é algo impensável. A vida humana é o bem mais precioso, e por ela tudo se faz. Não cultua a morte.

  • Ambientalismo. Tem plena consciência da necessidade de preservar e conservar o meio ambiente, como única forma de manter a vida.
  • Visão de futuro. Com certeza, será o homem que levará a humanidade a viver fora do planeta Terra, conservando essa como celeiro único do universo para a sobrevivência das populações dos demais planetas. A Terra será despovoada, aqui ficando talvez um décimo da população atual, para cuidar, com tecnologias de ponta, das lavouras, dos rebanhos e dos mares.

  • Humanismo. O homem é o centro do universo, porque é o único animal que tem condições de interferir no seu próprio destino e mudá-lo, mas conhece suas limitações e sua função no contexto evolutivo e cultural em que se insere.

  • Racionalismo. Embora profundamente sensível, o homem higiênico não se deixa levar pelo sentimentalismo ou por superstições: testa todas as variáveis, antes de tomar uma decisão.

  • Tolerância. Tem consciência de que, mesmo preponderante, não é o único espécime entre os homens, nem o seu rei ou seu líder máximo. Por isso, ainda que não compactue com superstições, não as persegue, na certeza de que serão superadas. Também não admite qualquer tipo de perseguição ou de preconceito por cor da pele, ideologia política, social ou religiosa, posição social ou por qualquer outra diferença existente entre os humanos. Os outsiders, os que não se adaptam, serão respeitados e protegidos de alguma forma, sem influenciar sua decisão de serem do jeito que são.

  • Igualitarismo social. Todos, absolutamente todos, são iguais perante a lei e os direitos e deveres sociais.

  • Igualitarismo sexual. O homem higiênico compreende as diferenças físicas entre os sexos, mas será cada vez mais igualitário em termos de pensamento e capacidade de produção, trabalho ou criação, sem se preocupar com a opção sexual de cada um.

  • Socialismo. Sabe que a sociedade perfeita é aquela em que todos tenham iguais oportunidades. Novas formas de relações econômicas, desenvolvidas por sua capacidade criadora, permitirão que esse ideal seja, pouco a pouco, alcançado, com a total eliminação da pobreza e das desigualdades sociais.



Concluí: o homem higiênico é quase tudo aquilo que não somos hoje. Mike, já cansado, talvez, da longa lengalenga, apenas perguntou:

- Você já leu o Cândido, de Voltaire?

Tive vontade de lhe dar uma banana, não a fruta, que ele aprecia, mas a banana gestual, que tão sabiamente traduz, às vezes, a nossa indignação. Contive-me. Caíra a ficha. Estava sendo otimista demais, ingênuo demais. O homem é bárbaro e adora a barbárie. Somos todos xiitas, somos todos homens-bomba, somos todos hitleres de carteirinha e estalinistas de botas e chapéu. Não toleramos o diferente. Não respeitamos o meio ambiente. Não damos nenhum valor à vida humana. Acho que o melhor, mesmo, é torcer para que o mundo se arrebente.

Que venha o degelo dos polos!

Que a temperatura média suba vinte, trinta, cinquenta graus!

Que a humanidade se frite e desapareça.

Talvez, quem sabe, surjam daqui a alguns bilhões de anos, em qualquer outro lugar do universo, outros seres que sejam mais sábios que nós, o homo sapiens sapiens. O arrogante homem sábio mais sábio que todos.

Hélas! Ai de nós!

O Mike foi dormir, talvez sonhar com selvas e bananas. E eu fiquei, ali, meio bobo, a contemplar as estrelas. Até que um passarinho chato gritou lá do alto da pitangueira: bem-te-vi... bem-bem-bem-te-vi!

Gozação do Mike, tudo bem... mas de bem-te-vi! Como na piada do português, respondi-lhe:

- Se bem me viste, cala o bico!

E fui dormir, já na manhã anunciada do bem-te-vi, passarinho que acorda cedo.

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