sábado, 28 de agosto de 2010

CONSIDERAÇÕES DE UM MACACO SOLTEIRO

(Guignard - família do fuzileiro naval)





O frio bateu forte. Saí um pouco ao quintal, para ver se estava tudo bem com o Mike. Ele me aguardava.

- Não sente frio? – perguntei.
- Não tanto quanto vocês, humanos. Repara minha pelagem.

Sim, ele está, agora, com uma pelagem mais densa, mais brilhante, preparado para o inverno. Mais bonito, também.

- Está com ar preocupado, por quê?

Mike não respondeu de imediato. Pegou um pedaço de mamão que lhe entregara, subiu ao lugar mais alto de sua casa, começou a comer e, pouco a pouco, foi-me revelando suas considerações.

- Sou um macaco solteiro. Nem conheci minha família biológica.
- Sua família humana sempre o tratou muito bem, Mike. Todos o amam muito, aqui...
- É, eu sei. Não tenho queixas. Mas minha vida contraria o lado grupal de minha raça. Nós, macacos, vivemos em bandos, você sabe.

Assenti. E senti que, dessa introdução, algo mais estava piparoteando na cabecinha do Mike. Puxei um pouco mais a gola do casaco e esperei, pacientemente, que ele terminasse o pedaço de mamão.

- E respeitamos muito a família. Não há, entre nós, casos de maus tratos a membros da família, depois de um período de adaptação, de percepção e de acolhimento.
- Mas... muitos de vocês enjeitam os que não terão condições de sobrevivência.
- Sim, é uma lei da natureza. Somos assim. Se nasce uma cria defeituosa, a mãe abandona logo esse ser, para não sofrer depois. Não há maldade. Apenas necessidade.
- Onde você quer chegar com esse papo? – provoquei.
- Depois de acolhido, no entanto, o novo membro, todos se revezam na sua proteção. Até que ele ganhe independência. Como entre os humanos, a família é a célula de nossa organização social. Mesmo depois de cada filhote seguir seu destino e constituir sua própria família, os vínculos permanecem, dentro do bando.
- Mas ainda não sei aonde você quer chegar...
- Ouço coisas que me arrepiam. Coisas terríveis andam acontecendo com os humanos. Na família.

Arrepiei. Porque percebi que ele estava a falar de acontecimentos muito recentes. Esperei pela bomba que ele aprontava, mesmo com o frio corroendo meus ossos, ainda mais gelado agora.

- Vocês, homens, também constituíram sua organização social com base na família. Herança de nós, animais. Que está nos seus genes, nas suas lembranças mais primitivas. E vocês evoluíram para sistemas mais complexos de bandos. Tendo, no entanto, sempre a família por base. Agora, eu noto que estão estarrecidos com certos fatos que parecem acontecer com uma certa frequência no interior da célula-mater: maus tratos, incestos, assassínios. Indicam a deterioração de um tecido que devia proteger e que se transforma em armadilha.

Gelei mais com o gelo de suas palavras do que com o frio da noite.

- A família humana é muito cruel. Tem em seu bojo aspectos culturais pervertidos, que se acumularam em milênios de um desenvolvimento canhestro e estranho. Somos, os homens e animais, frutos de evolução. Mas vocês criaram o artifício de imaginar que são anjos decaídos. Eram perfeição e, agora, necessitam reconquistar um paraíso.

Passaram pela minha cabeça as crenças todas dos homens, sua luta interna entre o mal e o bem, entre o céu e o inferno, entre deus e o diabo.

- Esse conflito – proseguiu o Mike, como lendo meus pensamentos – fez do homem um ser que se equilibra entre forças precárias e contrárias, entre o animal evoluído que verdadeiramente são e o anjo decaído que imaginam ser. E isso, parece, está afetando sua sensibilidade tribal, seu ponto de equilíbrio para conter o lado animalesco e conviver com ele sem precisar desestruturar a célula base, a família. E então, vocês estão descobrindo algo terrível: estão descobrindo que a família humana não é mais o modelo ideal de proteção aos novos membros, não é mais a base sólida de sua estrutura social complexa.
- Você está dizendo que o modelo familiar humano não é mais o ideal?
- Sim, isso mesmo. O modelo familiar humano parece estar falido – ele me olhou nos olhos, com uma sombra de tristeza e de vivacidade. – Mas há algo ainda mais aterrador para vocês...
- O que pode ser ainda mais terrível? – o frio da noite entrando pelas mangas e pelas bordas de meu casaco.
- Vocês não têm nada, nenhum outro modelo, para colocar no lugar da família.

Baixei a cabeça, levantei a gola e fui para dentro de casa. Ainda ouvi, por algum tempo, os ruídos do Mike a procurar, entre os vários artefatos que ele tem em sua casa, mais algum pedaço de banana ou de mamão, para comer. Só depois de uns dez minutos é que ele aquietou.

Eu, nunca mais.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

RELIGIÃO É DISCURSO, E NADA MAIS

(arte chinesa)


Estava seco o ar. Calor em pleno inverno. Não conseguia conciliar o sono, como se dizia antigamente. Levantei-me, acendi as luzes do quintal. Mike apareceu, sonolento, de cara feia.

- Não quero papo, disse ele, piscando um pouco os seus olhinhos redondos. Vou comer um pedaço de mamão e dormir.
- Nada disso. Estive pensando umas coisas e queria sua opinião.
- Minha opinião, nessa altura da noite, e com esse tempo, de nada lhe valerá...
- Não importa. Ouça, apenas. Se você achar que é besteira, não diga nada. Ou melhor, vire as costas e vá dormir...
- É o que eu vou fazer...
- Não! – foi quase um grito.


Mike voltou-se, acomodou-se um pouco e ficou me olhando. Sua fisionomia não era nem de enfado nem de desgosto. Era, apenas, de paciência.

- Está bem... já perdi o sono mesmo.
- Vou tentar ser curto e grosso.
- Grosso você já foi, ao me acordar...
- Não seja ranzinza, Mike... Está bem: ouça. Estive pensando nisto: o deísmo, a crença em deuses, as religiões são apenas discurso.
- Hm.... isso vai acabar no que eu sei em que vai acabar...

Ignorei o comentário de Mike. Já estava viajando nas idéias, mas tentei resumir.

- Sim, discurso. Quando a bíblia diz: deus criou o mundo, isso não tem nenhum compromisso com a realidade. Temos uma categoria absurda como sujeito e um predicado que não significa abolutamente nada. Como ninguém pode provar a existência de deus, também não se pode provar que ele não existe. Então, deus é apenas uma palavra, um signo, sobre cujo significante eu posso escrever zilhões de definições, escrever bilhões de tratados, inventar milhões de qualidades ou defeitos. A partir do momento em que assimilo o signo deus, instala-se em minha cabeça um processo desencadeado na pré-história do homem, um conceito de algo que não se pode definir exatamente o que seja, ao contrário, por exemplo, de uma pedra, uma flor, um ente, enfim, concreto, do qual eu tiro características, para defini-lo. Deus, não. Eu aceito características e aponho ainda mais as minhas próprias necessidades de crença e da cultura onde vivo. Então, deus se torna aquilo que eu imagino que ele é, não o que ele possa ou pudesse ser na realidade. Realidade, aliás, que não existe. Porque eu a crio, ela se torna uma verdade. Daí, no predicado cabe qualquer idiotice, como dizer que criou o mundo, ou destruiu a abóbora, ou escravizou a lesma. Tudo se torna possível, a partir da palavra deus: o absurdo cria absurdos, mas chancelado pelo sujeito, todos os discursos são possíveis, desde que se estabeleçam alguns princípíos lógicos. Porque, se eu disser que deus escravizou a lesma, é crível, mas não é lógico. Para tornar esse discurso lógico (e isso é possível), eu preciso criar, inventar uma teogonia para a lesma. Assim, o absurdo passaria não apenas a ser crível, como também lógico. E tudo faria sentido. E uma nova religião poderia surgir, a partir da simples palavra lesma... Entendeu? Por isso, eu digo que religião é apenas discurso. Sem o verbo, não há religião e também não há verba para sutentá-la...
- Espere aí – interrompeu o Mike, o trocadilho sem verbo não não há verba é bom, mas misturar discurso com dinheiro já é forçar a barra...
- É que eu acho que a religião é o maior business que o homem já inventou. Deixe-me explicar...
- Você não vai explicar nada, por hoje. Entendi o que você quis dizer com o fato de religião ser apenas discurso... e você tem razão. Mas deixemos o business para outra ocasião, está bem? Boa noite.

Virou-me a costas o macaquinho mal-criado, entrou em sua casinha e eu fiquei mais um pouco por ali, pensando. Mas também o que vinha à minha cabeça, àquela altura, era só mesmo asneira. Como pode ser asneira tudo o que já pensei até aqui. Paciência: melhor pensar asneira do que não pensar nunca, imaginei o Mike dizendo isso, com seu jeito irônico. Fui dormir.

domingo, 22 de agosto de 2010

PLANETA AZUL

(Adedos - night at the beach)

De tempos em tempos, recebo e-mails contendo fotos da Terra. Fotos maravilhosas, tiradas por potentes câmeras localizadas em satélites. Mostrei algumas delas ao Mike, numa noite qualquer. Reação dele: uh!



- Uh! Mike? Você não acha que nosso planeta é muito bonito, visto assim do espaço?
- Uh! Sim, respondeu ele. O que não quer dizer que não ache belas as fotos. Mas são apenas fotos: a natureza é sempre bela, vista por microscópio ou vista pelas lentes de um satélite. Mas a Terra é apenas um lugar, um lugar para se viver. Há perigos na natureza, e também são belos esses perigos. A vida é que um espetáculo, não fotos de satélite.


- Mas você não acha que a divulgação desse tipo de mensagem não conscientiza o homem de que ele precisa proteger seu habitat?
- Bobagem. O homem, como todo animal, é um predador assumido.
- Isso é puro pessimismo...
- O homem apenas pensa que pode tudo, mas não pode.... a natureza tem suas leis, seus movimentos, que podem não ter nada a ver com a vontade humana.
- Do que você está falando, Mike?
- Estou falando de uma natureza que se modifica a cada instante, que cria e destrói a vida a cada momento, que não pode ser domada: o planeta Terra, onde vivemos, é apenas um minúsculo grão de areia na teia do Universo... Somos menos que nada, na ordem universal. Bobagem querer que o homem se civilize a ponto de salvar o planeta. O homem não pode salvar o planeta, porque a vida não quer ser salva: ela começa e recomeça sempre, em qualquer lugar, em qualquer momento, sem noção de geografia ou de tempo, porque no Universo não há um lugar, assim como não existe um tempo: tudo é um todo contínuo, sem divisões, sem pressa, sem calma, sem nada, apenas é.
- Você está falando por metáforas?
- O homem é apenas um elo na cadeia da vida. Um elo frágil, tão frágil como qualquer molécula. Não existe futuro para a raça humana, como não existe futuro para a vida, apenas presente. Nesse aspecto, até que idolatrar a tal beleza (que é um conceito absurdo) da Terra vista do espaço, pode até fazer um certo sentido, o sentido da ignorância do que seja realmente a vida.
- Bendita ignorância, disse-lhe eu.

E ia tentar continuar o diálogo, mas o Mike me interrompeu, de forma brusca e até mesmo puco educada.

- Chega por hoje, já nos dissemos asneiras demais: filosofia me cansa. Cosmogonias, então, só servem para ocupar o oco do cérebro, nada mais. Não saber é melhor do que iluminação. Vou dormir. Até amanhã.

Fiquei ali, contemplando a cópia das fotos da Terra, olhei para o céu estrelado, tentei imaginar o Universo e também fui dormir. Afinal, aquelas mesmas estrelas que acabara de ver podiam nem mais existir! Sempre que olhamos o céu, vemos o passado. Sempre que vemos o passado, foge-nos o futuro e sempre que nos foge o futuro, pensamos asneiras. Dormir pode ser a fuga de tudo, porque o sono a tudo tranquiliza. Principalmente nossas inquietações cosmológicas ou cosmogônicas.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

REFLEXOS DA LUA AZUL

(Caspar David Friedrich)


Na noite seguinte, sentia-me doente, com gripe. Mesmo assim, ao ouvir ruído no quintal, entendi que o Mike me chamava e fui até lá. Levei-lhe um pedaço de bolo de milho, para uma boquinha noturna.

- A noite está bonita, com essa Lua, comentei.
- Você ainda está impressionado com a Lua Azul. Esqueça. Esqueça a Lua, as estrelas, a noite que você diz estar bonita. A natureza não é bela. Apenas existe. Beleza é conceito que os homens inventaram, para categorizar coisas.
- O que você está dizendo? Que a beleza não existe? Como assim? E esta noite estrelada? Não é mais bela que uma noite fechada, nevoenta, chuvosa? E um pôr-do-sol? Não é um belo espetáculo?
- Não. A noite fechada, nevoenta ou chuvosa, como você diz, é tão bela quanto uma noite de Lua e de céu estrelado. Ambas existem, porque são necessárias ao ciclo da vida. Não há beleza nem feiúra na natureza: há apenas a natureza a manifestar-se. O olho humano inventou linhas retas e as considerou belas, uma vez. O mesmo olho inventou linhas curvas e as considerou belas, noutro dia. Porque assim é que deve ser, ou melhor, é assim que não deve ser: tanto existe a linha reta quanto existe a linha curva. Ambas são apenas o que são e nada mais. Arte é apenas a submissão do homem a seus critérios subjetivos. O que existe, na verdade, é a técnica, apenas a técnica, quando se trata de obra humana; mas, na natureza, isso não vale. Na natureza tudo segue como deve ser, em função da vida e da existência. Nada mais.
- Puxa, Mike! Você está meio azedo, hoje...
- Não. Não estou azedo, apenas não gosto da síndrome da Lua Azul, desse maravilhamento que você tem no olhar diante de um brilho lunar que se repete a zilhões de anos, sempre o mesmo e sempre diferente: cada noite uma Lua; cada noite, um olhar diverso. E isso, sim, faz a diferença, não a categorização em: - que bela noite! ou: - que noite horrorosa, que vocês, humanos, fazem.

Depois desse puxão de orelhas, até perdi o tesão pela Lua que brilhava lá em cima... Ia pensar: que bela Lua, mas recolhi até mesmo o meu pensamento e fui dormir.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A LUA AZUL

(Cláudio Dantas)



A noite estava clara. Havia, no céu, uma lua sem tamanho. Saí para contemplá-la, pé ante pé, para não acordá-lo, ao Mike.

- Veio ver a lua azul?

Não pude deixar de perceber a ironia na observação do Mike. Eram 31 de maio e a imprensa destacara a segunda lua cheia do mês, a lua azul. Um fenômeno raro, mas totalmente idiota, pois dependente de um calendário anti-natural, anti-lunar, um calendário artificial.

- Você me assustou, seu macaquinho chato!
- Também perdi o sono, retrucou ele. Ouvi tanta bobagem sobre a lua azul, o dia inteiro, que fiquei pensando em como o homem inventa categorias idiotas e cultos absurdos.
- Já vi que você está amargo, hoje...
- Veja: para que eu, um simples macaco-prego, existisse, quantos bilhões de seres nasceram, viveram e morreram? Você tem idéia? Claro que não, mas isto é a vida: um continuum, um bolo imenso a fermentar nas entranhas, nos meandros, nos interstícios de cada célula, de cada ser, de cada espécie...
- Complicou, tudo, Mike... Que história é essa de interstícios? De meandros?
- Eu sou muito grato a você e todos aí da casa, pela minha vida. Muito, mesmo. Já não devia existir desde os primeiros momentos de minha vida, quando fui rejeitado por minha família, com menos de quinze dias...
- Puxa, Mike, que memória você tem!
- Vocês me criaram, cuidaram de mim. Quando fiquei doente...
- Aquele AVC!
- Isso, aquele acidente vascular cerebral teria sido fatal em qualquer outra circunstância. Mas vocês me levaram ao médico, me deram remédios. A medicina dos macacos é muito, muito limitada. Conhecemos umas poucas ervas para dor de barriga, para uma ou outra indisposição. Doença é sinal de morte. Por isso, todo animal doente é abandonado para morrer. Vocês, homens, têm essa grande vantagem: lutam contra a morte.

Mike fez uma pausa, olhou para a lua, comeu um pedaço de mamão. Suas palavras me deixaram comovido. Então, ele continuou:

- Por que vocês, humanos, lutam contra a morte e nós, os animais, não?

Mais uma pausa. Dessa vez, dramática.

- Porque, tornou ele, nós não temos consciência da morte. Só percebemos que vamos morrer, quando estamos morrendo. E aí, é tarde demais. O homem, ao contrário, desde os primeiros vagidos é condicionado, por suas categorias metafísicas, a pensar que é um ser destinado a morrer, porque a vida foi dada por um deus e por ele será levada. Aliás, para o homem, morrer é passar para um outro estágio de existência, no reino desse deus ou de seu inimigo, o satã. Então, o homem vive a vida pensando na morte...
- Talvez seja esse pensamento louco uma das poucas vantagens da crença deísta, interrompi.
- É verdade. Mas não é uma vantagem tão grande como se poderia imaginar: ao viver pensando na morte, o homem, muitas vezes desvaloriza a vida e deixa de viver.
- Você tem razão, Mike. Tornamo-nos visionários de ilusões...
- E como visionários, não percebem esse intrincado jogo de tecer que é a vida. Cada ser vivo é fruto da vida e da morte de bilhões de outros. Há, sim, uma certa permanência, ou eternidade, para usar um termo que você possa compreender, mas é uma eternidade chamada vida, ou seja, eu, um macaco-prego existirei enquanto houver macacos-prego no mundo. Minha existência está condicionada à existência da minha espécie, ao mesmo tempo que eu, um indivíduo, um ser ínfimo no grande oceano da vida (impossível fugir dessas metáforas), também condiciono a existência de minha espécie. Portanto...
- Entendi: você quer dizer que toda vida é importante para a existência da própria vida.
- É. Mais ou menos isso. Mas já estou cansado, vou dormir.

Nem se despediu, o mal humorado Mike, nessa noite de lua azul. E eu fiquei ali, pensando mais uma vez em quão estúpidas são as nossas categorizações metafísicas.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

DE MODERNISMOS E PÓS-MODERNISMOS

(Siegfried Zademack)





Era tarde da noite. A lua, imensa, brilhava. Tempo bom, temperado. Saí um pouco, para conversar com o Mike. Também ele estava insone.

- Uma lua pós-moderna, brinquei.
- Não brinque com uma bobagem dessa, retrucou o Mike. Você não sabe que as palavras têm mais poder que os fatos que elas traduzem?
- Como assim?
- Veja: modernismo e pós-modernismo. São conceitos absolutamente vazios, mas utilizados por todos. O que é moderno? É tudo o que é contemporâneo. Platão era moderno, na época dele.
- Agora é um velho gagá...
- Deixa o Platão brincar lá na república dele, que o buraco é mais... bem, é em outro lugar.
- Explique, não entendi.
- Voltemos ao conceito de moderno: o homem que se diz moderno, só o é em termos tecnológicos, ou seja, há todo um super-aparato de ciência, de cientificismo, que criou uma quantidade absurda de objetos de desejo e de consumo, ao mesmo tempo que buscou facilitar a vida de quem consegue consumi-los, o que é apenas uma parte da humanidade, e não é a maior parte. O homem criou objetos fantásticos, desde o primeiro motor a explosão até o microchipe, que permite multiplicar ao infinito a capacidade humana de interferir no mundo, mas continua baseando sua civilização nos mesmos conceitos niilistas de religiões falidas e filosofias ultrapassadas. Mudou a forma, aquilo que nós vemos, em termos de civilização, mas a barbárie é a mesma da época dos romanos. Esfola-se, mata-se, tortura-se, estupra-se tanto quanto em qualquer outra época. O modernismo humano é só uma questão de jeito de administrar os bens que o homem produz. Nada mais. Então, meu caro, falar de pós-moderno torna-se uma asneira construída em cima de outra. Uma bobagem, apenas uma bobagem.

Fiquei um pouco intimidado com a verborragia do Mike, geralmente tão comedido, ou tão pouco disposto a soltar tudo o que pensa assim, num turbilhão. Mas, tentei, assim mesmo, cutucá-lo:

- Mas há uma civilização sendo construída...
- Que civilização? A civilização do consumo? A da tecnologia? Tecnologia não significa, absolutamente, civilização. Quando o homem primitivo descobriu as ferramentas, ele evoluiu, sim, em termos de facilidades, mas continuou sendo primitivo por milhares de anos. E esse homem primitivo ainda está muito vivo dentro do homem atual, que se diz civilizado, mas que, na verdade, tem apenas um verniz muito fino de civilidade. Enquanto existir dentro do homem o instinto assassino, não há civilização no seu conceito mais puro. Portanto, esqueça isso de homem moderno, de homem civilizado: existe o homem tecnológico, o homem que usa a inteligência para conquistas fundamentais para a sua história, mas que, ainda, em seu íntimo, não saiu da idade primitiva do cacete e da borduna.
- Como você é pessimista, Mike.
- Eu não sou pessimista. Acredito que vocês, humanos, ainda vão chegar à civilização. Porque já há homens bastante civilizados entre vocês. E não são poucos. Mas ainda minoria. Quando esses homens um pouco mais civilizados se tornarem maioria, quando se implantar de vez a filosofia do respeito à vida humana, ao meio ambiente e a si mesmos, os seres humanos começarão a construir, de verdade, uma civilização. Que não será perfeita, claro, mas onde um homem ou uma mulher poderão, enfim, viver plenamente, sem medo de sair às ruas, sem balas perdidas, sem grandes diferenças sociais, sem a sombra do assassinato e do genocídio...

Mike jogou fora um restinho de banana que ele comia, tranquilamente, enquanto me falava tudo aquilo, virou-me as costas e foi para sua casinha, dormir. Fiquei ali por mais alguns instantes, fitando a lua, pensando em suas palavras. Não havia o que argumentar. Também me recolhi, na minha insignificância de pretenso homem pós-moderno. Hélas!

sábado, 14 de agosto de 2010

PAPA É FODA, MUITO FODA!

(Vita - Resting)


Noite sem lua. Acendi as luzes e esperei. Logo, ele saiu de sua casa, devagar, com preguiça. Dei-lhe um pedaço de maçã. Não parecia muito animado, mas gostou da fruta. Permaneci calado, não estava muito de conversa, não. Mas o Mike não resistiu:

- Só se fala na visita do Papa, hem... que saco!
- Pois é – respondi – o alemão vem aí para ver se consegue manter a igreja dele...
- Manter, só? – ironizou o Mike. Ele vem tentar reverter o prejuízo que os crentes têm dado à igreja... Até santo brasileiro ele inventou!
- Será que ele consegue? – perguntei, assim, meio só por perguntar.
- Vai ser difícil, mas acho que consegue, sim. Já reparou como a mídia, a grande mídia, só fala no cara? Todos os dias, há mais de três meses, eles martelam na cabeça das pessoas que o papa vem aí, que vai acontecer isso, que ele vai ficar não sei onde, que vai comer não sei o quê, enfim, um massacre... É muito poderoso o marketing desse povo. Escreve aí: vai ser difícil, a igreja vai ter de mudar, mas acho quevai vencer a guerra contra os crentes. As igrejas evangélicas são monocórdicas...
- Monocórdicas, Mike, de onde você tirou isso?
- Monocórdicas, sim – retrucou o Mike, sem se importar com meu riso de mofa. Elas têm um discurso muito rasteiro, de salvação, de pagar para se salvar, de tirar demônio das pessoas, não têm sofisticação teológica, não... Já a igreja romana tem mais de dois mil anos de prestidigitação, de enganação, de discurso... Veja: até a famigerada inquisição, que poderia ter acabado com ela, os papas conseguem transformar em algo que pode ser perdoado! E tem mais: o nazismo de Pio XII, as sacanagens dos padres pedófilos, tudo a igreja do alemão acaba abafando, com seus sermões, seus cânticos e sua pregação. Papa é foda, meu amigo, papa é poder acumulado de muitos séculos!

Confesso que minha paciência com a mídia, a martelar nossa cabeça o dia todo com a visita desse papa, já havia se esgotado há muito tempo. Então, só me restava concordar com o Mike e ir dormir. Não se pode fazer nada contra um papa. Papa é, mesmo, muito fodão!





(Nota: conversa ocorrida em maio de 2007, quando da visita do papa ao Brasil)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O QUE É, MESMO, FELICIDADE?

(Abdalieva Akzhan)



A noite estava um pouco fria. Saí, mesmo assim, para escovar os dentes, contemplar as estrelas e ver se estava tudo bem com o Mike. Ele estivera doente e ainda se recuperava. Perguntei-lhe:

- Você está feliz, Mike?
- Ora, tanto quanto você, quando come frango com ora-pro-nobis...
- Ih! Está mal humorado, comentei...
- Não, não, isso não é mau humor, é apenas a constatação de um fato que vocês, humanos, não percebem: não existe felicidade!
- Como? Não existe felicidade? Então, para que nós nascemos?
- Aí é que está o busílis: nós nascemos para viver, apenas isso.
- Claro, nascemos para viver, mas e a busca da felicidade?

Então, o macaquinho coçou as barbas e olhou para mim, com olhos de “coitado desse cara, não manja nada da vida”. Quase pude vislumbrar um leve sorriso no canto de sua boca, que comia, agora, gostosamente, um pedaço de mamão papaia que lhe levara.

- Vou lhe explicar uma coisa, disse ele, pausadamente. Felicidade é uma categoria metafísica, isso é, uma coisa inventada por algum estúpido filósofo que não entendia nada da vida e, por isso, precisava buscar no além explicações para aquilo que, embora esteja, debaixo de nossos narizes, nós não entendemos: que a vida, o mundo, é isto aqui. Nada mais. Que a vida, sim, é que é o seu próprio grande milagre.
- Ahaha! Então você reconhece que a vida é um grande milagre! – cortei eu, com um pouco de sarcasmo.
- Eu falei milagre no sentido figurado, para você me entender melhor...
- Está me chamando de burro?
- A vida existe em si mesma, prosseguiu o Mike, ignorando minha pergunta. A vida não precisa de explicações metafísicas. Se eu olho uma pedra, tenho que sentir, perceber com meus sentidos que aquilo é só uma pedra e nada mais. Buscar a essência da pedra, a pedra primeva, é estupidez de metafísicos e idiotas. Assim...
- Espere: eu concordo com você. Mas e a felicidade?
- Então, a felicidade é um estado abstrato, um além do momento em que nós nos sentimos plenos de vida; a felicidade é um extrapolar de qualquer alegria e satisfação, um ente abstrato, tão abstrato quanto a essência de uma pedra. Ou seja, um ente metafísico. E, como tal, não existe. Só existem, mesmo, os momentos de satisfação que temos, quando nos integramos de fato à vida e nos damos conta de que tudo o que nos rodeia, inclusive nós mesmos, fazemos parte desse imenso cadinho em transformação que é o mundo, o mundo rico de tudo o que precisamos para viver... Nada mais.
- Nada mais?

Mas o Mike já tinha se recolhido a seus aposentos. Talvez um dia ainda voltemos ao assunto. Mas acho que ele tem razão: felicidade! Viver é apenas viver, sem nenhum outro objetivo senão este. Por que inventamos essas bobagens? Acho que buscar a felicidade, como sentido da vida, é que realmente nos torna infelizes, por mais estúpida que possa parecer essa observação...

Recolhi-me, também, que a friagem da noite já me arrepiava o corpo. E, nesse caso, uma cama macia e um cobertor quente são sempre sinais claros de satisfação. Ou daquilo que chamamos felicidade.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O DIABO ESPREITA ATRÁS DO PÉ DE ORA-PRO-NOBIS

(Mia Makila)


Depois de longo perído de chuvas, o céu estava claro e havia um disco grande e redondo iluminando a noite. Saí para conversar um pouco com o Mike. Mas ele não estava muito disposto a conversar. Acho que a monotonia das chuvas dos dias anteriores deixara-o deprimido. Ou dormira tarde, por causa de uns fogos não muito distantes, comemorando não sei o quê. Mike odeia estampidos. Pegou um naco de banana, sua boquinha normal da noite, e esperou que eu dissesse alguma coisa.

- Os macacos acreditam em demônios, em seres malignos?

Mike arregalou os olhos. Insisti:

- Sabe, é que o capeta, o demônio, acho que está meio em baixa ultimamente entre os humanos... só os crentes ainda faturam algum, expulsando demônios em seus cultos...

- Para que demônio, se tanta maldade já se pratica em nome de Deus? – ironizou o Mike.

- Como?

- O homem não precisa de demônios, de capetas, do satanás... deus, o seu deus, o deus inventado pelos homens tem praticado tantos horrores, que é absolutamente desnecessário que se jogue a culpa dos crimes do mundo numa figura tão bizarra...

- Então, deus tem duas faces: a do mal e a do bem?

- Não, absolutamente, não. A acreditar nisso, cairíamos no odioso maniqueísmo. Deus é um só: aquele que os homens inventaram, com todas as nuances de maldade e bondade de que homem é capaz. Porque o homem, sim, é mau e bom ao mesmo tempo. Nele estão todas as desgraças do mundo e todas as maravilhas também...

- Não entendi bem, Mike, você...

- Olha, ali no fundo: atrás do pé de ora-pro-nobis...

- Não estou vendo nada: é só o vento, balançando as folhas...

- Pois, é: nossa discussão sobre deus e o demônio é como o vento balançando as folhas. Ou seja: é só o vento balançando as folhas, não leva a nada. Vou dormir. Até amanhã.

Fiquei sozinho, a contemplar a lua branca lá em cima, um espetáculo raro, numa cidade tão grande e tão cheia de medos e maravilhas... Um ventinho miúdo soprou. Arrepiei. Fui, também, dormir.

Amanhã vou colher um pouco de folhas de ora-pro-nobis e fazer um bom frango para o almoço, pensei.

domingo, 8 de agosto de 2010

PENSAMENTOS ATEUS... DO MIKE (II)

(Portinari - Brodowski, paisagem)


O natal passou. A ressaca, também. Retomei, alguns dias depois, o diálogo com o Mike. Tinha pensado muito no assunto. Provoquei-o:

- Os macacos têm algum tipo de religiosidade? Acreditam em algum tipo de deus?

- Seria ridículo – devolveu-me – um deus dos macacos, você não acha?

-Tem razão, seria ridículo.

- Os homens inventaram um deus criador por pura arrogância – continuou o Mike. Porque não se aceitam como participantes, como nós, de uma cadeia evolutiva. Querem ser a criatura suprema da criação, a imagem e semelhança de um deus qualquer. Isso não é nem um pouco racional. É pura estupidez.

- Concordo plenamente com você Mike. Embora seja minoria, uma escassa minoria, entre os meus semelhantes, penso (e tenho certeza de que estou certo) de que não há um criador, então não há criaturas. Somos todos, seres humanos e demais seres viventes no universo, categorias diversas de um mesmo cadinho de vida. O homem não é o ser superior, porque não sabemos para onde ele evolui. O homem é apenas uma experiência que, até agora, tem dado certo no processo de tentativa e erro da natureza. Mas, não podemos afirmar que ele seja o coroamento de um processo. Porque, na evolução, não há o conceito de progresso ou melhoria, mas sim de adaptação. Se o homem conseguir se adaptar à natureza, sobreviverá. Digo “se”, porque sua história ainda é muito recente para termos qualquer tipo de certeza quanto ao seu futuro.

Mike que, até esse momento, comia um bom naco de banana prata, bem docinha, que lhe levara, olhou para mim com seus olhinhos redondos e irônicos. Julguei ver em sua carinha um quase sorriso de satisfação. Mas deve ter sido ilusão. Porque, como todos sabem, macacos não riem. Mas que ele estava satisfeito, disso não tenho dúvidas. Tomou a palavra, entusiasmado:

- Desviamos nosso assunto inicial, religião, para criação. Embora sejam correlatos, eu gostaria de continuar nosso papo anterior.

- Vá em frente - disse eu.

Mike não se fez de rogado, principalmente porque lhe trouxera, junto com a banana, uma porção de sementes de girassóis, que ele adora. Entre um estalido e outro da abertura dos girassóis secos, ele retomou seu raciocínio:

- Religião não é o ópio do povo. Religião não é um conjunto de regras morais ou éticas. Religião é um desvio do pensamento, uma criação equivocada do homem. E, sob esse aspecto, não há religião melhor ou pior. Há apenas um conjunto de conceitos estúpidos e absurdos que tomaram, por meio de um sistema eficiente de apropriação da mente ainda primitiva do homem, a maior parte da sua consciência, para se tornar um dos aspectos mais tenebrosos do obscurantismo. Qualquer contemporização, de filósofos, pensadores, cientistas, para com os conceitos deístas, no sentido de admitir qualquer conjunto de valores éticos provenientes de livros ditos sagrados de qualquer religião, tem sido um grande equívoco.

Notei que ele se exaltava um pouco, e chamei sua atenção:

- Vá com calma, Mike, você está muito agitado...

Não me deu ouvidos. E continuou:

- Não há qualquer possibilidade de o pensamento deísta encontrar saídas éticas para o homem. É um pensamento esgotado. Contra ele tem de se levantar todos os verdadeiros interessados na despoluição do pensamento humano. Vocês, humanos, não podem ter medo de queimar todos os altares, de destruir todos os ícones, de renegar todo esse lixo cultural proveniente do pensamento deísta. Vocês têm, muito além desses conceitos obscurantistas, coisas bem mais importantes com que se preocupar.

- Você está sugerindo uma guerra contra o deísmo?

- Não, claro que não. O combate, o grande combate às idéias deístas, se restringe àquilo que ele deve ser: contra as idéias, o pensamento, os conceitos, a filosofia, a falsa moral e a falsa ética do deísmo. Mesmo quando falo em destruir todos os altares, isso é apenas uma metáfora. Porque não se pode inaugurar um nova época com conceitos iconoclastas, com atos de vandalismo ou novas formas de barbárie. Apenas e tão somente o combate às idéias, nunca às pessoas.

- Mas - redargui, meio sem jeito – dizem que a religião é o freio do homem... que ele não vive sem crenças. O que colocar no lugar da religião? A ciência?

- Ora, meu caro, não há o que se colocar no lugar do pensamento deísta, porque não existe absolutamente nenhuma necessidade de se colocar algo no seu lugar. Já o homem tem com que ocupar sua mente com milhões de outros problemas ligados à sua vida na Terra ou em outros planetas, questões concernentes à sua sobrevivência e ao seu futuro. Porque, também, não será a ciência o substituto do pensamento religioso. Ciência é apenas um processo, um meio de descobrir o mundo, não uma filosofia de vida. Filosofia de vida é ecologia. É respeito. É convivência.

E concluiu, enfático:

- Lutar contra o pensamento deísta é despoluir o homem de um de seus maiores equívocos. E prepará-lo, agora seriamente, para enfrentar os desafios de uma convivência que não seja predadora, mas respeitosa e ecológica, para si e para o mundo em que vive.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

PENSAMENTOS ATEUS... DO MIKE!

(Michelangelo - adam)


Era natal. Havia o clima de sempre, no ar: fogos, que o Mike detesta; a falsa idéia de confraternização; o cheiro de comida, muita comida.

Fui ao quintal, para respirar um pouco. Afinal, estava bastante quente. Acabei tendo de ouvir o que eu jamais pensei que ouviria do Mike, sendo ele bastante econômico em seus comentários. Deduzi que teria sido o estouro de foguetes que o irritara. Porque, assim que puxei papo, ele desandou a falar:

- O que é preciso ficar claro: não se pode ser complacente com a religião, começou ele.
- Não entendi: explique.
- Os conceitos deístas já tiveram sua vez. – E, diante de minha surpresa: - Levaram a humanidade a dilemas filosóficos e éticos absolutamente sem saída. Porque não têm respostas para o homem. Nunca tiveram. Foram baseados numa metafísica podre em sua origem, ao sistematizar o inefável, o inexistente; ao inventar categorias invisíveis e dividir o mundo entre o mal e o bem. Não há mal e bem na natureza. Não existe mal e bem no homem. Há apenas ações que podemos considerar pertinentes ou não pertinentes ao grau de civilização de uma determinada sociedade, num determinada momento histórico, num determinado território físico.

Puxei um banquinho. Sentei. Suspirei e pedi:

- Continue, sou todo ouvidos...

E ele não se fez de rogado:

- Não existe um mundo além do físico. Não existem transcendências além da matéria. Não existe nada que se possa aproximar da essência do que quer seja. A metafísica, o transcendente, a coisa essencial foram invenções de quem não dominava ainda a compreensão do mundo.

- Você esta falando dos filósofos metafísicos, eu interrompi.

- Sim, deles e de todos os que vieram depois – completou o Mike. E acrescentou, quase com raiva: - O homem não pode continuar curvando-se a deuses absurdos. Ponto. Religião não é uma forma de conhecimento. Ponto. Religião é apenas uma absurdidade obscurantista, nada mais. Portanto, não há razão, nenhuma razão (e emprego esse termo no seu sentido mais puro, de racionalismo) em querer ser complacente com as religiões. Todas elas, sem absolutamente nenhuma exceção, são excrescências do pensamento humano. São desvios do pensamento lógico e da compreensão da natureza.

- Espere, interrompi mais uma vez. – Preciso de um tempo para pensar sobre isso. Além disso, estão me chamando para a ceia. Podemos continuar nosso papo mais tarde?

- Mais tarde, você estará bêbado e não vai entender nada, disse o Mike. A gente se fala amanhã, ou depois, quando essa merda toda de natal tiver passado.

- Está bem. Quer alguma coisa para comer?

- Eu só queria uma fatia de rabanada. Você pode trazer pra mim?

- Claro, espere um pouco.

Trouxe-lhe a iguaria que, aliás, eu também aprecio muito. O Mike me olhou satisfeito, empapuçou-se com a rabanada e foi dormir. Eu, bem, eu fui comemorar o natal... afinal, ninguém é de ferro. E deus que nada, o melhor mesmo é comer e beber bastante, para celebrar o nascimento de quem a gente nem sabe direito se nasceu, quanto mais se disse toda aquela bobagem que lhe atribuem.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

CIÊNCIA E RELIGIÃO

(Caspar David Friedrich - two men contemplanting moon)


Verão. Noite quente. Fui ao quintal ver um pouco as estrelas, menos brilhantes com poluição da grande cidade. Não queria muita conversa, mas o Mike puxou o assunto:

- Vocês, humanos, quando olham as estrelas, pensam num deus, não é?
- Eu, não, Mike... estou muito distante de um pensamento deísta, você sabe.
- Mas, há gente que tenta unir ciência e religião.
- Você se refere ao desenho inteligente, ou plano inteligente, que tem aparecido por aí?
- Talvez, talvez.
- Isso é uma tremenda besteira.
- Também acho.

A conversa morreu ali. Estava com sono e não muito propício à discussão filosófica, principalmente sobre um tema que não leva a nada. Dormi. E sonhei. Sonhei, ora vejam só, com deus. O pai eterno estava diante de um dilema: queria construir um mecanismo complexo e não sabia como fazer todas as suas partes interagirem para fazer funcionar tal mecanismo. E esbravejava:

- Tudo devia ser como a roda: um círculo e pronto. Sem complicação, sem interdependências de elementos, tudo muito simples. Mas, um olho! Um olho é muito complicado: tem mil pequenos detalhes para fazê-lo funcionar! Eu monto de um lado e o outro lado não funciona, quando ambos funcionam, não consigo fazê-los interagir!

Só então percebi que, ao lado de deus, um senhor de longas barbas e olhar complacente dava boas risadas.

- Deixa disso, deus, você já fez muito ao criar o universo. Deixe os detalhes por minha conta, vai descansar...

- Ora, Darwin, vá você descansar... ou vá para o inferno...

Infelizmente acordei, suado com o calor. Mas fiquei pensando. Só mesmo para o inferno podia deus mandar o Darwin, o velho e agora tão combatido pelos criacionistas cientista que mudou o rumo do pensamento humano. Só mesmo para o inferno, que é, isso sim, uma criação divina.

Aí me lembrei do Mike, quando disse que o homem pensa em deus quando olha as estrelas. Mike estava enganado. O homem tem pensado em deus quando olha para coisas bem menos poéticas do que as estrelas. Há um grupo de pseudo-cientistas que, imbuídos da mais torpe filosofia neo-criacionista, embasados em argumentos metafísicos e tomistas e agostinianos, querem pôr mais lenha na fogueira agonizante do pensamento religioso. Porque a ciência tem lacunas, porque a ciência ainda não pode explicar tudo, porque o pensamento científico verdadeiro é muito recente, porque a ciência trabalha com tentativas e erros e, finalmente, porque para o verdadeiro cientista não há verdades absolutas, esses idiotas do pensamento metafísico inventaram o tal desenho ingeligente, ou plano inteligente.

Ele só é inteligente quanto à sua concepção como forma de enganar trouxas. Com argumentos falsamente científicos, querem aproximar duas coisas que não têm razão para serem aproximadas, porque são como água e fogo: ciência e religião.

Religião á algo inventado pela imaginação do homem. Baseia-se no postulado da fé. Só é religioso aquele que tem fé. Essa palavrinha é a explicação sutil e, ao mesmo tempo, fundamental do edifício deísta. Pode-se ter fé em qualquer coisa. Inclusive em deus ou deuses. E ponto final. Não se discute. Porque é uma categoria metafísica: aquilo que está além de qualquer explicação racional. Religião é irracionalidade. E ponto.

Ao passo que ciência é observação, pesquisa, busca. Que leva a caminhos que não se sabe aonde vão dar. O verdadeiro cientista não tem fé, não tem pré-conceitos: olha e avalia o que vê. Às vezes, vê errado. Ou avalia errado. Então, recomeça. Sem nenhum resquício de conceitos arraigados nem de idéias básicas ou fundamentais.


Todo religioso é, no fundo, fundamentalista: acredita em conceitos fundamentais. Ao contrário do cientista, que não tem nenhuma idéia mágica em que se apoiar, a não ser a observação e a avaliação da natureza.

Também, não existem vários tipos de religiosos: todos, absolutamente todos, são obscurantistas. Se uns são mais tolerantes do que outros, é por pura adaptação ao meio ou, ainda, por um pouco mais de verniz civilizatório em suas crenças absurdas. No fundo, no entanto, todos, absolutamente todos, têm certeza de que seu deus punirá, de alguma forma, aqueles que não têm fé.

Então, não se misture fé com ciência. E não entremos na jogada de marketing que é esse tal de desenho inteligente, ou plano inteligente. É sempre a mesma patacoada, para enganar trouxas e dar a impressão de que a religião ganhou foros científicos.

Uma bobagem, Mike, uma bobagem. Você tem razão: o homem precisa parar de olhar para a natureza e pensar em um deus.

Uma coisa não tem nada a ver com a outra: para justificar a existência de deus, fizeram-no criar a natureza, o mundo, quando o mundo (a natureza), através do homem, é que criou a divindade ou divindades.

E a divindade criou o inferno, para onde os criacionistas de todas as religiões nos mandam, já que são todos muito, muito bondosos e tolerantes...

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

AINDA O HOMEM HIGIÊNICO

(Alma Tadema - who is it?)




A noite estava quente, muito quente. Saí para o quintal. Acabei acordando o Mike, que desceu para uma boquinha de mamão e banana. Fiquei por ali, à toa, tentando refrescar. Mike olhou para mim, com seus olhinhos redondos e, se não sorriu, pareceu-me ver um pouco de ironia no seu tom.

- Não entendi muito bem essa história de homem higiênico.
- Nem eu, respondi. Ainda estou enrolado nessa história. Foi uma idéia maluca que me surgiu.
- Que tal a gente aprofundar um pouco esse assunto, que pode ser interessante...

Ali ficamos por um bom tempo, trocando idéias. Dessa longa conversa, resultou o que se segue.

Simplificadamente, assim o homem traçou o seu destino: os neandertais dominaram o planeta por... sei, lá... 400 mil anos. Eram toscos e troncudos. Caçadores natos. Desapareceram. Expulsos pelos cro-magnons, mais esbeltos, mais inteligentes, não apenas caçadores, mas também criadores - de cultura, de agricultura, de animais. São os pais do homo sapiens sapiens. Na natureza é assim: experimenta-se. E muito. O que dá certo sobrevive e evolui. O que não dá certo desaparece. Os neandertais desapareceram, substituídos pelos mais sábios cro-magnons. Mas, há também, outra lei, na evolução: nada surge de repente, mas aos poucos, lento o tempo da transformação, lento o tempo do novo. Então, podemos supor, apenas supor, que os neandertais já traziam em si a origem dos cro-magnons, que lentamente aqui e ali começaram a aparecer e os suplantaram. Sem luta, sem mágica, sem trauma. Aos neandertais, o esquecimento, por sua não adaptabilidade. Aos cro-magnons, as batatas. As batatas e o futuro. Nós.

Também o chamado homo sapiens sapiens, que não é o topo da evolução, mas um elo, está gerando pouco e pouco o seu sucessor. Já disse que o chamo de homem higiênico. Se quiserem, homo diaeteticus. Portanto, já ele está entre nós, aqui e ali, espécimes que surgem em qualquer país, dentro de qualquer cultura, sem que os percebamos muito bem. Uma experiência que pode ou não dar certo. Para assegurar o futuro, como os cro-magnons, se futuro houver para nós, os neandertais de hoje. Que os de ontem, toscos e grossos, pelo menos conseguiram assegurar: não dizimaram toda a caça, não destruíram toda a floresta, não poluíram todas as águas.

Mas, quais seriam as características desse homem higiênico? As físicas, não sei, podem ser uma mistura qualquer de tons, de altura, de brilho dos olhos, que a natureza é pródiga em criar formas e cores. Mas as de caráter, torço para que sejam estas:


  • Ateísmo. Não pode o homem higiênico compactuar com qualquer superstição. Sua mente deve estar livre de cultos, de deuses, de anjos ou demônios.

  • Cientificismo. Crê no que está provado e comprovado. Sem endeusamentos de correntes, de idéias, de teorias. Mas não considera a ciência um avatar, apenas um meio seguro, dentro de princípios da ética e da cultura do momento e do lugar onde está inserida, de compreender o mundo.

  • Ética. Não o moralismo deísta, mas a ética da compreensão e do entendimento do que seja o homem e sua relação com mundo que o cerca.

  • Pacifismo. A beligerância, gene mal desenvolvido do homo sapiens sapiens, deverá estar totalmente erradicada do DNA do homem higiênico. Nada, absolutamente nada, justifica a guerra ou a existência de armas. Assassínio, para ele, é algo impensável. A vida humana é o bem mais precioso, e por ela tudo se faz. Não cultua a morte.

  • Ambientalismo. Tem plena consciência da necessidade de preservar e conservar o meio ambiente, como única forma de manter a vida.
  • Visão de futuro. Com certeza, será o homem que levará a humanidade a viver fora do planeta Terra, conservando essa como celeiro único do universo para a sobrevivência das populações dos demais planetas. A Terra será despovoada, aqui ficando talvez um décimo da população atual, para cuidar, com tecnologias de ponta, das lavouras, dos rebanhos e dos mares.

  • Humanismo. O homem é o centro do universo, porque é o único animal que tem condições de interferir no seu próprio destino e mudá-lo, mas conhece suas limitações e sua função no contexto evolutivo e cultural em que se insere.

  • Racionalismo. Embora profundamente sensível, o homem higiênico não se deixa levar pelo sentimentalismo ou por superstições: testa todas as variáveis, antes de tomar uma decisão.

  • Tolerância. Tem consciência de que, mesmo preponderante, não é o único espécime entre os homens, nem o seu rei ou seu líder máximo. Por isso, ainda que não compactue com superstições, não as persegue, na certeza de que serão superadas. Também não admite qualquer tipo de perseguição ou de preconceito por cor da pele, ideologia política, social ou religiosa, posição social ou por qualquer outra diferença existente entre os humanos. Os outsiders, os que não se adaptam, serão respeitados e protegidos de alguma forma, sem influenciar sua decisão de serem do jeito que são.

  • Igualitarismo social. Todos, absolutamente todos, são iguais perante a lei e os direitos e deveres sociais.

  • Igualitarismo sexual. O homem higiênico compreende as diferenças físicas entre os sexos, mas será cada vez mais igualitário em termos de pensamento e capacidade de produção, trabalho ou criação, sem se preocupar com a opção sexual de cada um.

  • Socialismo. Sabe que a sociedade perfeita é aquela em que todos tenham iguais oportunidades. Novas formas de relações econômicas, desenvolvidas por sua capacidade criadora, permitirão que esse ideal seja, pouco a pouco, alcançado, com a total eliminação da pobreza e das desigualdades sociais.



Concluí: o homem higiênico é quase tudo aquilo que não somos hoje. Mike, já cansado, talvez, da longa lengalenga, apenas perguntou:

- Você já leu o Cândido, de Voltaire?

Tive vontade de lhe dar uma banana, não a fruta, que ele aprecia, mas a banana gestual, que tão sabiamente traduz, às vezes, a nossa indignação. Contive-me. Caíra a ficha. Estava sendo otimista demais, ingênuo demais. O homem é bárbaro e adora a barbárie. Somos todos xiitas, somos todos homens-bomba, somos todos hitleres de carteirinha e estalinistas de botas e chapéu. Não toleramos o diferente. Não respeitamos o meio ambiente. Não damos nenhum valor à vida humana. Acho que o melhor, mesmo, é torcer para que o mundo se arrebente.

Que venha o degelo dos polos!

Que a temperatura média suba vinte, trinta, cinquenta graus!

Que a humanidade se frite e desapareça.

Talvez, quem sabe, surjam daqui a alguns bilhões de anos, em qualquer outro lugar do universo, outros seres que sejam mais sábios que nós, o homo sapiens sapiens. O arrogante homem sábio mais sábio que todos.

Hélas! Ai de nós!

O Mike foi dormir, talvez sonhar com selvas e bananas. E eu fiquei, ali, meio bobo, a contemplar as estrelas. Até que um passarinho chato gritou lá do alto da pitangueira: bem-te-vi... bem-bem-bem-te-vi!

Gozação do Mike, tudo bem... mas de bem-te-vi! Como na piada do português, respondi-lhe:

- Se bem me viste, cala o bico!

E fui dormir, já na manhã anunciada do bem-te-vi, passarinho que acorda cedo.