sábado, 31 de julho de 2010

O HOMEM HIGIÊNICO

(Roberto Magalhães - enigma)




Essa não foi uma conversa fácil. O Mike estava chateado, porque, durante o dia, quando fui consertar a casa onde ele dorme, ele me dera uma mordida. Doeu. Doeu, sim. Mas não reclamei.

Ele, então, me pediu desculpas. E veio com aquela história de instinto, sabe?, como a fábula da rã e do escorpião. Para quem não se lembra: numa enchente, o escorpião estava se afogando, arrastado num pequeno galho. Encontrou a rã e suplicou-lhe que o salvasse. Mas a rã não confiava no escorpião e só depois de muitas promessas de que ele não a picaria, pois ambos morreriam, a rã concordou em levá-lo, em suas costas, até a margem. No meio do caminho, a picada. Antes de morrerem ambos, o escorpião ainda se desculpou: foi o instinto, amiga, e isso está acima de minhas forças.

Também o Mike me mordera por instinto, por isso não fiquei com raiva dele. Mas, chateado ele estava, porque não admitia que o instinto o tomasse, assim, por nada, por ter passado por sua cabeça, num átimo, que eu estivesse pondo em risco o seu habitat, ao substituir uma casa velha por outra, mais nova e mais higiênica.

Assim, aproveitando que ele não queria falar muito, comecei a esboçar a teoria do homem higiênico, que há muito me preocupava. Não sabia, como ainda não sei, aonde vai me levar esse pensamento, cujo esboço primeiro tentei contar ao Mike, naquela noite, quando ele estava chateado por ter me mordido. O que eu lhe falei foi isto:

O ser humano é um animal em processo. Desde o surgimento da primeira molécula viva, o homem evolui e se modifica através dos tempos. E ainda não terminou essa trajetória: estamos indo, caminhando, sem saber para onde, mas o processo continua. Se não for interrompido. Pela mão do próprio homem, ao destruir o seu habitat (e ele, ou melhor, nós, nós podemos fazê-lo), pela guerra ou pela poluição.

O surgimento do homo sapiens sapiens, ou seja, o homem moderno, foi o maior, o mais belo e o mais traumático acontecimento desse processo chamado evolução. É claro que não foi um salto, nem ocorreu de repente: foi algo que apareceu aos poucos e foi tomando forma até que a civilização começasse a surgir pelas mãos desse ser complexo e dominasse o mundo.

Mas o homo sapiens sapiens não é fim de uma escala. Ainda vai evoluir para um outro tipo de ser humano, que começa a surgir e que irá, pouco a pouco, tomar as rédeas da civilização e conduzi-la para um patamar diferente do que estamos agora. Dentro do homo sapiens sapiens ainda convivem eras distintas de civilização e civilidade. Somos um cadinho de contradições não resolvidas entre a fera que mata para sobreviver e um ser que tem consciência da vida e da morte.

O novo homem superará a violência, a ânsia de guerra e de matança e compreenderá melhor sua relação com os demais, aceitando todas as diferenças e respeitando-as; estabelecerá com meio ambiente uma relação de convívio pacífico e de não destruição; terá seus olhos voltados não para deuses beligerantes, mas para a construção de um mundo em que a justiça prevalecerá, onde a pobreza se tornará cada vez mais uma exceção, até ser completamente extinta; saberá controlar o crescimento populacional; preparará o caminho para a conquista de outros mundos, mantendo a Terra como o celeiro das civilizações planetárias; será, enfim, um homem preocupado com sua higiene, seja ela mental, física ou psíquica, convivendo harmonicamente consigo mesmo e com os demais, com o meio ambiente daqui e de outros planetas.

Por isso, eu o chamo HOMEM HIGIÊNICO: o sucessor do homo sapiens sapiens.

O Mike balançou a cabeça afirmativamente, grunhiu alguns comentários que eu não entendi muito bem se eram de aprovação ou reprovação, e foi dormir. Voltamos ao assunto várias vezes, nesses anos. Mas isso, depois eu conto.

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