terça-feira, 27 de julho de 2010

O BICHO HOMEM

(Aaron Board)


Necessário dizer que o Mike mora a alguns metros de meu quarto. Vê televisão. Ouve rádio. Está sempre por dentro de tudo, com seu ar meio alheado, sempre muito sério. Lembro que, um dia, já bem tarde da noite, fui escovar os dentes (como sempre faço), perto da casa dele. Acordou e, meio sonolento, me disse apenas isto:

- O bicho homem é muito estranho: morre para salvar defunto.

Não entendi muito bem, na hora. Principalmente porque ele estava meio de mau humor e voltou logo para sua casinha, para dormir. Agora, passado muito tempo, vendo o esforço dos bombeiros para resgatar os corpos de pessoas soterradas no acidente do metrô, em São Paulo, fiquei pensando em como tinha razão o Mike Tyson, o meu querido macaquinho.

O homem cultiva a morte. Vive para a morte. Reza para a morte. Constrói cemitérios imensos para guardar matéria inerte. E túmulos. E jazigos com esculturas fantásticas. Ou, então, piras enormes para queimar cadáveres e depois guardar suas cinzas. Cultuamos demais a morte. Nem é preciso referir-se às pirâmides egípcias: verdadeiros monumentos à morte (e que drenaram a economia e as forças do povo, mesmo que as consideremos monumentos fantásticos da criação humana) de faraós e reis estúpidos e idiotas.

Chico de Assis, meu mestre de dramaturgia, uma vez disse que o homem é o único bicho que carrega nas costas o cadáver dos que morrem. É verdade. Faz parte de nossa cultura a adoração da matéria inerme. Não nos contentamos com a lembrança do morto. Queremos (e assim o fazemos) tornar o morto menos morto com celebrações, com procissões, com homenagens. Tudo besteiras da nossa tradição metafísica de que há vida após a morte.

Nem Shakespeare (e é também uma lição de meu mestre Chico de Assis) resistiu a uma incoerência na sua mais do que fantástica peça HAMLET, ao fazer aparecer o fantasma do rei morto a seu filho, exigindo vingança por sua morte, quando, mais adiante, no solilóquio do ser ou não ser, escreve que nenhum homem jamais regressou do mundo dos mortos:

"Quem gostaria de suportar tão duras cargas, gemendo e suando sob o peso de uma vida afanosa, se não fosse o temor de alguma coisa depois da morte, região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou, confundindo nossa vontade e impelindo-nos a suportar aqueles males que nos afligirem, ao invés de nos atirarmos a outros que desconhecemos?" (Grifo meu, é claro).

Vivemos num mundo povoado de fantasmas, embora nenhum viajante, seja ele amigo, parente ou conhecido, jamais tenha voltado para nos dizer o que quer que seja, a despeito de toda a doutrina espírita e dos filmes de Hollywood quererem nos fazer acreditar no contrário.

E nos matamos por um morto, para resgatar um corpo, para sepultar um cadáver.

Realmente, o Mike Tyson, meu macaquinho filósofo, tem razão: o bicho homem é, sim, um animal estranho. Muito estranho.

Nenhum comentário:

Postar um comentário