quinta-feira, 29 de julho de 2010

NÃO DÁ PRA COMPETIR COM A MEDIOCRIDADE.

(Leslie de Chávez)



Estávamos, eu e o Mike, observando o movimento dos bem-te-vis ariscos, que pululavam e pulavam nos galhos da pitangueira, quando ouvimos gritos estridentes provindos do edifício que fica nos fundos do nosso quintal.

Alguém berrava contra a música de uma cantorazinha chata, que se repetia e se repetia no aparelho de som de um vizinho. Já havíamos, eu o Mike, isolado e anulado, em nossas cabeças, aquele som irritante. Mas, os gritos de protesto, que fizeram que o Mike arreganhasse os dentes, tiveram o condão de nos despertar de novo para aquela musiquinha chata que tentava encobrir as implicâncias dos bem-te-vis (sempre achei o bem-te-vi um passarinho danado de implicante, com aquele seu bem-te-vi, bem-te-vi... parecem a consciência do mundo das aves!).

Os protestos, por outro lado, tiveram consequências opostas: o idiota do som aumentou o volume e quebrou todo o encanto da tarde, da tarde que caía suave, com as reclamações dos bem-te-vis.

- Não se pode competir com a mediocridade, disse, então, o Mike.

Na hora, concordei com ele, mas não atinara com a profundidade de suas palavras. E só agora, muito tempo depois, percebo a pérola de sabedoria (que coisa mais medíocre essa: pérola de sabedoria!). Reescrevo, então, a frase: É só agora, muito tempo depois, percebo que havia, sim, muito mais lições naquela frase singela.

Não se pode competir com a mediocridade.

As pessoas, todas as pessoas, não importa onde estejam, a que cultura pertençam, o que comem, como levam a vida, todas as pessoas neste mundo aprendem ou são induzidas a assimilar que a razão da existência é a busca da felicidade.

E, para encontrar a tal felicidade, esfolam, agridem, matam, destroem uns aos outros. Criam doutrinas e fantasias, poluem seus pensamentos com idéias absurdas e, pior de tudo, acreditam piamente que agindo assim ou assado conseguem alcançar a tal felicidade.

E então, tome lições de vida, pérolas (agora, sim, a palavra no contexto certo, com toda a carga de ironia que possa ter) de sabedoria para o uso diário em qualquer situação, como, por exemplo, fazer amigos e influenciar pessoas; como agradar seu chefe e ser promovido; como se tornar um cidadão acima de qualquer suspeita, mesmo fazendo as maiores trapaças com dinheiro público...

As pessoas, todas elas, acreditam que o amor vence qualquer dissabor, que basta um sorriso para desarmar o adversário, que acariciar um cão feroz fará da besta o mais suave carneirinho... Tudo pela tal felicidade. Tudo por uma boa ação, para que um deuzinho estúpido e pregado numa cruz possa dizer: amai-vos uns aos outros, meus filhos.

E todos se amam, tanto se amam, que se matam, que se esfolam, que se destroem. Em nome dessas liçõezinhas medíocres, dessas pérolas de sabedoria que só tornam os idiotas infelizes em idiotas perigosos e... mais infelizes ainda, porque os levam a defender mais estas palavras do tal mestre medíocre do madeiro: quem não está comigo está contra mim.

E então, a mediocridade dessas máximas, interiorizadas e repetidas zilhões de vezes, desde que nascemos, nos tornam verdadeiros imbecis a buscar, a qualquer custo, a tal felicidade, essa categoria metafísica que devia ser jogada na lixeira da história ou encontrar seu nicho no museu da estupidez humana.

Não existe felicidade. Ponto. Existem, sim, momentos de satisfação.

A vida é assim: não só cheia de som e fúria, mas também de bons momentos. Mas nada que nos faça acreditar que haja um estágio de contemplação absoluta que se denomine felicidade. Todas essas frases de efeito, de enganador resultado, só servem mesmo para consolidar a idéia de que, realmente, não é possível competir com a mediocridade. Embora eu acredite firmemente que o homem, o ser humano, somente conseguirá ultrapassar o estágio de barbárie em que ainda se encontra, se tomar consciência dessas doutrinas medíocres que poluem o seu pensamento e o fazem excluir todo aquele que pensa, age, come, dorme, fala, trabalha, faz filhos, olha o mundo de forma diferente.

Precisamos, enfim, buscar formas de competir com a mediocridade e vencê-la. É uma das saídas para a situação de barbárie do homem dito moderno. Dessa vez, discordo um pouco do Mike. E abro os ouvidos para o alerta desse passarinho chato que fica gritando lá do alto da velha pitangueira: bem-te-vi, bem-te-vi, bem-te-vi!

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