segunda-feira, 26 de julho de 2010

DIÁLOGOS DO MACACO

(Darwin - por Toni d'Agostinho)



Mike, ou Mike Tyson, é um macaco-prego que vive em minha casa há mais de vinte anos. Chegou bebê, 15 dias, enjeitado pela mãe. Ganhou um lar humano, mas, pelo menos, não morreu (por falta de assistência familiar) ou foi sacrificado. De onde ele veio? Não importa. Está aqui há tanto tempo, que é gente da família.

Li algures que o pugilista Mike Tyson está processando, nos Estados Unidos, as pessoas que colocaram seu nome em macacos. Pois é: bobagem dele. O nome foi homenagem, não deboche. Quando pequeno, nosso macaquinho gostava de lutar, como se fosse boxeador, uma brincadeira que muito nos divertia. Por isso, o nome, Mike Tyson. Porque, também, era fã do lutador estadunidense. Uma figura e tanto. Ainda voltarei a falar dele em algum momento dessas longas conversas com Mike, o preguinho assanhado que vive em nossa casa.

Mike, há cerca de uns dois anos, teve um AVC (acidente vascular cerebral), o popular derrame. Encontrei-o rastejando em sua casa. Foi um susto. Veterinário. Cuidados. Medicamento em hora certa. Até fisioterapia fez com ele a minha mulher. Recuperou-se. A única sequela é que já não brinca como antigamente. Havia e há vários brinquedos em sua casa. Com eles tirava sons, batendo uns nos outros; ou batia bolas como jogador de basquete; ou simplesmente empurrava-os de um lado para outro. As brincadeiras continuam, mas mudaram o jeito, a forma como ele as fazia. Mike ficou mais reflexivo, mais pensativo, acho. Por isso, nossos diálogos têm sido mais filosóficos, mais profundos.

Quando comecei a conversar com ele? Há uns dez anos, mais ou menos. Mike foi sempre excessivamente cuidadoso quanto a isso. Falava pouco, muito pouco. Às vezes, monossílabos. Agora, conversa mais animadamente. Proibiu-me, no entanto, de divulgar essa sua, digamos, excentricidade. Não fala com absolutamente ninguém mais. Nem com minha mulher, a quem considera sua verdadeira mãe. Com ela se entende por assobios, em códigos que ambos compreendem para fome e outras necessidades.

Conversamos quase sempre de madrugada. Não durante muito tempo, que ele não gosta de perder horas de sono. Mas o suficiente para me dizer coisas muito profundas, que tentarei reproduzir aqui, nesses diálogos do macaco, que inauguram mais esse Trapiche.

A crítica ao homem talvez seja um pouco mais sutil, porém mais ácida, do que as que eu faço no Trapiche do Ateu. Porque, agora, provêm de um ser que tem outra visão de mundo, que vê o que acontece por aí sob a óptica de uma vida mais saudável, mais natural.



Espero que haja um ou outro leitor, um ou outro comentarista, dessas mal traçadas linhas de preocupação filosófica com a situação humana. Porque, no fundo, é disso que trata., afinal, esse blog, do homem e suas contradições e temores. Não é um assunto agradável, muitas vezes, mas são coisas que precisam ser ditas.



P.S.: Abro o blog com a caricatura de Darwin, não em homenagem ao Mike, mas como homenagem ao pensamento darwinista e ateu sob cuja sombra estarão as ideias e opiniões sobre o ser humano desse trapiche.



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