sábado, 30 de julho de 2011

HOMOFOBIA É ESTUPIDEZ DO HOMEM


(Katy Bailey)




Fazia muito frio e o Mike não conseguia dormir. Agasalhei-me e fui lá levar-lhe algo quente, para minorar a insônia gelada. Por isso, o papo foi breve.

- Queria te dizer uma coisa... – começou o Mike.

Estranhei, porque geralmente sou eu quem o provoca.

- Diga. Mas seja breve, que estou congelando.
- Estou aqui matutando sobre um problema idiota que tenho ouvido: a agressão a homossexuais...
- E o que vocês, macacos, pensam sobre isso?
- Bem, homossexualismo existe entre muitas espécies animais...
- E daí?
- E daí que só entre os homens, ditos “sapiens” (e ele escandiu bem a palavra, para ressaltar a ironia) é que isso é considerado estranho...
- E não é estranho? – provoquei, embora concordasse plenamente com ele.
- Não, não é. Tudo o que acontece entra para o rol das coisas comuns.
- Mesmo o inusitado?
- Sim, mesmo o inusitado. Mas, não mude de assunto. Eu fiquei abestalhado com uns caras aí que agrediram um homem que se abraçava ao próprio filho, pensando que ele era homossexual...
- E cortaram-lhe uma orelha...
- Isso é absolutamente impensável. Uma estupidez sem tamanho. Vocês, homens, estão perdendo a medida das coisas. Está difícil considerar a humanidade como “evoluída”. Os atos bárbaros estão cada vez mais comuns, o que nos remete para a uma situação de normalidade o fato de aceitarem a homofobia, os massacres, os assassínios e todas as demais agressões que vocês cometem uns contra os outros, por motivos cada vez mais estúpidos...
- Olha, Mike, eu até gostaria de aprofundar esse assunto com você, mas o frio...
- Tem razão, está muito frio, tão frio que anda congelando o pensamento do “homo sapiens”. Vamos tentar dormir. Se for possível, diante de tantos atos bárbaros...
- Você está falando de quê?
- Daquele cretino lá da Noruega... Mas deixa pra lá... Boa noite.

Alimentado, Mike foi para seu abrigo tentar dormir. Eu perdi definitivamente o sono, nesta noite fria, muito fria...

domingo, 16 de janeiro de 2011

O PERDÃO A DEUS

(Bosh - reis magos)




Noite chuvosa. Quando a tempestade amainou, saí para ver o brilho das folhas sob o aguaceiro, uma imagem realmente instigante. Encontrei o Mike com olho arregalado, degustando um pedaço de mamão que ele, com certeza, escondera para comer mais tarde, como sempre faz.

E a chuva, então, foi o assunto, claro.

- Você viu o estrago da chuva no Rio, Mike? – cutuquei-o.
- Mais ouvi do que vi, mas isso é normal: você sabe, verão, aquecimento global, la Niña, desmatamento, ocupações irregulares, ou seja, tudo o que todo mundo sabe. Então, era só uma questão de tempo, sem trocadilho...
- Você não ficou impressionado?
- Com o estrago? Não, não fiquei. A natureza é assim. O homem é que não sabe conviver com ela.
- Mas, e as vítimas?... Já são mais de seiscentas...
- Os que morreram, morreram... Preocupam-me os que sobreviveram: se forem reconstituir tudo do jeito que era antes, cometerão mais uma burrice.
- Puxa, Mike, como você é insensível! – e provoquei: - deus castiga!
- Sim, você disse bem: deus castiga, mas todos lhe perdoam imediatamente...
- Como assim? Não entendi.

O Mike arreganhou os dentes, que é o jeito dele de sorrir ou de rir mesmo, quando quer zombar de alguém. Insisti que não entendera, que ele me explicasse esse negócio de perdão. Mike olhou para o tempo, para o céu de chumbo lá em cima, balbuciou algo meio inteligível sobre trovões, que ele detesta, sentou-se calmamente, olhou para mim e se dispôs a falar. Eis o que ele disse:

- Olha, é assim: vocês humanos deístas – está bem, está bem, retiro o “vocês”, para excluí-lo disso, já sei que você é ateu – então, os crentes, os deístas, estão sempre a pedir perdão a deus por seus pecados, não é?

Assenti com a cabeça e Mike prosseguiu:

- Pois, bem, os humanos que crêem em deus acreditam que ele, deus, tudo pode, e que é um deus benevolente, que perdoa os pecados de quem se arrepende. Rezam, fazem promessas, cumprem rituais com o objetivo principal de agradar a divindade e ganhar um lugarzinho no céu. Muitos chegam ao cúmulo de se matar ou cometer crimes horrendos em prol de uma causa deísta, como os terroristas muçulmanos o fazem hoje, e como muitas outras seitas já fizeram no passado. Tudo para agradar a deus e obter o seu perdão. Não é assim?
- Claro, sem dúvida...
- Então, vamos analisar o que deus faz com os homens, já que, segundo os deístas, nada acontece sem a vontade dele: as pessoas matam e se matam, e isso é vontade de deus; as pessoas morrem em acidentes horríveis, no trânsito, nas construções civis, nas minas, em todos os lugares, a todo momento, e isso é vontade de deus; as pessoas ficam mutiladas, sofrem os piores sofrimentos (desculpe a redundância) físicos, mentais e psicológicos, e isso é vontade deus; as pessoas perdem seus bens, seus parentes e amigos em dezenas, centenas de acidentes, como terremotos, enchentes, erupções vulcânicas, maremotos etc., e tudo isso é a vontade de deus...
- Onde você quer chegar, Mike?
- Raciocine comigo: todos os sofrimentos humanos são a manifestação explícita e soberana da vontade de deus, já que ele tudo vê, tudo pode. Porque deus não mitiga esses sofrimentos? Que deus cruel é esse que mata, mutila, destrói, provoca tantas dores, tanto desespero?
- Realmente, isso é muita crueldade de deus... – comentei ironicamente.
- E tem mais: o cidadão perde toda a família – pai, mãe, mulher, filhos, primos, tios – e sobrevive por um acaso do destino, no meio da destruição, porque ficou, por exemplo debaixo de uma viga, durante um soterramento, e então o que ele faz, quando lhe perguntam como sobreviveu? Ele diz que foi graças a deus, que foi a mão de deus que o protegeu! E por que a mesma mão que o protegeu, também não salvou as demais pessoas de sua família? O que esse cara tem de especial em relação às outras pessoas? Por que foi ele o escolhido? E o que ele fez para ser escolhido de deus e salvar-se?
- É verdade, Mike, as pessoas falam mesmo essas coisas, de milagres... e muita gente acredita!
- Então, isso é o eu chamo de perdão. Ou seja: por mais que deus faça, os homens sempre lhe perdoam todas as maldades... Portanto, não é deus que perdoa aos homens, mas os homens é que vivem perdoando a deus...
- Puxa, Mike: nunca havia pensado nisso... você é mesmo muito perspicaz...
- E cansado, estou ficando velho, não ando mais tendo muita força para enfrentar chuvas e trovões toda noite... vou dormir...

E Mike virou-me as costas e foi para seus aposentos, dormir talvez o único sono dos realmente justos neste mundo, o sono de quem nunca em sua vida cometeu qualquer deslize que precisasse ser perdoado. Por isso, também ele não perdoa à divindade e critica os homens que o fazem.

Coisas do Mike, enfim, pensei. E também fui tentar dormir, que a chuva voltava a apertar.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

ECLIPSE DA LUA, FIM DE GOVERNO





Ante a notícia do eclipse lunar, saí para conversar com o Mike. Não estava ele muito interessado na Lua, mas sim no final do governo Lula.


Mike gosta do Lula, mas só gosta. Não é fanático. Tampouco grande admirador, como eu. Apenas gosta.

Cutuquei-o:

- E aí, gostou da popularidade do Lula, no final do governo?

O macaquinho não se fez de rogado:

- Lamento mais a saída, ou melhor, a não permanência de um cara polêmico e, talvez, o mais interessante de todo o governo do Lula...

- A quem você se refere?

- Ao Paulo Vannuchi.

- Paulo Vannuchi... Ah, sim, o Secretário de quê, mesmo?

- Direitos humanos...

- Isso, Secretaria Especial de Direitos Humanos... Não entendi por que você cita esse ministro em especial, Mike.

- Você, como ateu, devia ter prestado mais atenção a ele – senti a ironia e esperei o Mike terminar de comer um pedaço de banana. – É um dos melhores amigos do presidente. Mas, acima de tudo, foi um cara que fez declarações importantes – que a imprensa chama de polêmicas – como a de que só é possível aprofundar o processo democrático, se houver total abertura dos porões da ditadura, com a descoberta dos corpos dos mortos do regime militar e devolvê-los às famílias. Você sabe que nós, macacos, não damos importância a essa questão de liturgia da morte, a luto, mas, para o homem, é importante completar o ciclo da vida e aceitar a morte através do enterro de amigos, parentes etc. É uma forma de exorcizar o sofrimento...

- É, você tem razão, Mike: concordo plenamente com você e com o secretário – as Forças Armadas não deviam bloquear o acesso à verdade...

- Você usou exatamente os mesmos termos que ele, ao se referir ao caso: os exageros havidos devem ser individualizados, para que não manchem toda a instituição. As Forças Armadas, com essa teimosia em não abrir os arquivos, estão carregando um ônus inútil e estúpido: pagam todos o erro de alguns.

- É verdade... Mas você falou alguma coisa relacionada a ateísmo...

- Ah, sim: foi o homem, neste governo, que teve a lucidez de propor a eliminação de símbolos religiosos de repartições públicas, com o que também concordo plenamente e acho que você também.

Fiz um gesto de assentimento e Mike prosseguiu:

- E mais: afirmou peremptoriamente que as pessoas podem ter sua fé, mas que isso não implica influência nas questões públicas ou de Estado. Trouxe à tona o debate sobre o aborto, por exemplo, que é uma questão de política pública e não de fé. Esse debate não pôde ser aprofundado, porque a campanha política demonizou o assunto, com a interferência de radicais cristãos, que são a pior canalha da terra (exagerou um pouco, o macaquinho, mas tudo bem: ele pode!)... Por isso – prosseguiu o Mike – eu acho que o Vannuchi foi “o cara” do governo Lula – competente, inteligente, um grande pensador, na minha opinião...

E mais não disse o macaquinho, já sonolento pela sombra que o eclipse provocava ao redor, tornando a quente noite de verão um convite para a cama e não para outras considerações filosóficas e políticas.

Fomos dormir, eu e o Mike. Mas que o ministro Paulo Vannuchi é “o cara”, disso não tive mais dúvidas.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

CONSIDERAÇÕES SOBRE A VELHICE

(Deborah Poynton)




Saí o mais silenciosamente possível. Não adiantou. Lá me esperavam os olhinhos redondos e atentos do Mike: estava sem sono e percebeu meus movimentos, desde que chegara.

- Insônia de velho? – provoquei.
- O tempo é implacável, meu caro – disse o macaquinho, e acrescentou: - estou aqui matutando que meu tempo pode estar chegando ao fim.
- Todos morremos, disse eu, tentando amenizar o clima de tristeza que se apoderou de mim, ao imaginar que, realmente, o meu amiguinho de tantos e tantos anos podia, sim, estar caminhando para o fim da vida.
- Mas só o homem tem medo da morte – retrucou ele.
- Você não teme a morte?
- Não. Não há por que temer algo sobre o qual nós, os animais, nunca nos detemos a pensar.
- Mas você estava pensando nisso, conforme me declarou.
- Não exatamente. Não estava pensando na morte propriamente, mas no fato de que estou envelhecendo...
- Também isso é fato da natureza, é normal, não é, Mike?
- Para os humanos, envelhecer significa muito mais coisas do que apenas ter limitações físicas...
- O que você quer dizer?

Mike arreganhou os dentes e mostrou-me sua boca. Sim, ele está envelhecendo: tem perdido alguns dentes. E isso me preocupa. Acho que ele percebeu minha preocupação, porque em seguida disparou:

- Estou perdendo alguns dentes. E daqui para a frente, pode ser que minhas condições físicas se deteriorem. Também minha visão já não está lá essas coisas... Enfim, como vocês, humanos, nós também detectamos sinais de decadência física e nos preocupamos... mas é só isso e mais nada o que consome nossos pensamentos. Não temos nenhuma relação metafísica com a ideia de morte. Porque morte, para nós, é apenas o curso da natureza.
- Mas você disse que nós, humanos...
- Sim, vocês se preocupam demasiado com a morte. E sofrem com isso. Para vocês, envelhecer não é apenas contar mazelas físicas, como dor nas costas, perda de visão e outras “cositas más”... Vocês estabeleceram com a morte uma relação doentia, de temor e esperança... E então, o ato de envelhecer se transforma em sofrimento maior, quando começam a olhar para trás e contar as pessoas queridas que já se foram... Percebi seu sofrimento, quando morreu seu amigo de infância. A inevitabilidade da perda de amigos e parentes, enquanto se sobrevive a eles, não parece fazer parte da ideia de vida e de envelhecimento de vocês. E por isso, sofrem. Sofrem mais com esse fato, do que com as mazelas da velhice... Nós, animais, não: a morte dos outros, assim como a nossa, não tem nenhum significado: são apenas circunstâncias da vida. Sentimos, claro, mas não ficamos a lamentar a perda com funerais e lembranças que permanecem, às vezes, para o resto da vida...
- Você tem razão, Mike: para nós, envelhecer é contar amigos e parentes que se foram. E isso dói muito.
- Então, meu velho, nada há a fazer: sei que vou morrer, e sei também que isso vai fazer você sofrer, não é?
- Sem dúvida.
- Então, curta esses nossos papos, mantenha a amizade que nos une... Porque não há nada, absolutamente nada que se possa fazer. Boa noite.

E lá se foi o macaquinho para sua casa. E eu fiquei um pouco mais triste, um pouco mais velho, um pouco mais... Não, chega! Não quero ficar nem mais um pouco seja lá o que for. Já bastam todas as perdas que tive. Também vou dormir.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

UM LONGO E FURIBUNDO DISCURSO SOBRE POLÍTICA

(Odilon Redon - the fall of Icarus)





O macaquinho mal humorado revela-se, numa noite de inverno seca e quente. O inverno de 2010 castigou nosso sistema respiratório e aumentou a poluição da grande cidade. Mike também deve ter sentido os efeitos do clima, mas não se queixa sobre isso. Apenas observa e comenta. Nessa noite, no entanto, não era o clima a preocupação do Mike, mas a política, no seu sentido mais amplo. Assim que me aproximei, para levar-lhe uma fruta, perguntou-me como estavam as pequisas de opinião sobre as eleições. Respondi-lhe que o cenário conduzia para uma vitória em primeiro turno da candidata do Lula.

Mike não é exatamente um petista ou admirador do Lula, como eu. Mas noto que tem alguma simpatia pelo Presidente, por aquilo que ele realizou. Não gosta de política partidária, confessou-me uma vez.

- A direita tem feito algumas acusações de autoritarismo, por parte do Lula – disse-lhe eu.
- Isso é estupidez. Essa gente não sabe o que é autoritarismo – rebateu.
- E você sabe? – provoquei.
- Vou-lhe dizer o que penso sobre isso, se lhe interessa.
- Claro que me interessa.
- Então sente-se aí, que pode ser longa a coisa.

Busquei o velho banquinho, sentei-me e esperei que ele comesse a fruta que lhe trouxera. Só então, fixou os olhinhos em mim, arreganhou os dentes, num arremedo de sorriso, como fazem os macacos, acomodou-se e despejou sobre mim esta longa diatribe:

- O autoritarismo de Estado não é perverso apenas porque persegue, mata e toma decisões que afetam a vida de milhões de pessoas sem consultá-las e ainda destrói nações. Ele perverso também, e principalmente, porque penetra como a água na areia, em todas as mentes, e ali permanecem, ingerindo na vida das pessoas por muitos e muitos anos, interferindo nas pequenas decisões do dia a dia, as quais levam a grandes catástrofes humanas, mas realizadas de tal forma no cotidiano, que passam despercebidas e não são objeto de estudo nem entram para as estatísticas das desgraças que assolam a sua humanidade.

Não deixei de notar a forma irônica como ele disse “a sua humanidade”, mas nada disse e ele prosseguiu:

- As ideias conservadoras, eivadas de preconceito e de imposições morais, religiosas e tradicionais, constituem a erva daninha que assombra as mentes e obriga a que as pessoas façam gestos tresloucados ou se joguem no imobilismo que as leva à total ruína de suas próprias vidas e das vidas de pessoas que as amam, tornadas, muitas vezes, instrumentos de tortura na interferência de decisões que não deviam nem podiam ser tomadas sob o tacão da moral vigente ou de regras preestabelecidas de acordo com nefastas tradições de base moralista e religiosa, sob a tutela de deuses furibundos.

- E como evitar que essa erva daninha, como você disse, cresça e tome conta de tudo, Mike?
- Ah, isso já é outra história, melhor dizendo, isso só pode ser conseguido, se vocês, humanos, olharem melhor para a sua própria história, para a história de sua pretensa civilização. Os grandes heróis, os construtores de nações ou, como os latinos os denominam, os libertadores, esses homens tiveram importância primordial na concepção política do povo, mas deixaram, eles, sim, eles, deixaram indelevelmente marcada na mente das pessoas a necessidade de um líder, de um líder poderoso, que conduzisse as massas para um estado de beatitude e de bem estar, num messianismo catastrófico, que produziu o Estado autoritário e líderes ainda mais autoritários como Hitler, Mussolini e tantos outros.O único jeito de evitá-los é construir uma sociedade justa, leiga e extremamente consciente de seu poder transformador, nas ações do dia a dia, que não necessitam do chicote de um padrasto a lhes dizer a todo momento o que fazer. Mas isso, bem, isso é utopia, não é?
- Sim, a grande utopia.
- Então, meu caro, fique aí você com suas elucubrações político-partidárias, que eu vou dormir, que minha hora já passou há muito tempo...

E o macaquinho virou-me as costas e foi para seu abrigo, enquanto eu fiquei ainda um tempo por ali, tentando deglutir as palavras do Mike. Ao cabo, achei melhor nem comentar o que ele disse, porque nem sei se o que ele disse é realmente relevante ou foi apenas um momento de ranzizisse, que lhe é comum.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

VIDA E MORTE

(Vita - the expectation)





Um tema batia cá dentro na minha cabeça: a ideia da morte. Não a minha ou a de qualquer outro ser humano, mas a morte como espécie de “entidade” que todos tememos e da qual ninguém escapa. Como o Mike lida com essa ideia? Fui perguntar-lhe.

- Mike, você tem medo da morte?
- O quê? Não entendi sua pergunta – e o macaquinho arregalou os olhinhos redondos para mim.
- Morte, Mike, você pensa na morte?

Ele coçou a cabeça, andou um pouco de um lado para o outro, catou um pedaço de banana esquecido num canto, subiu ao cano que ficava bem diante de minha cabeça, tornou a se coçar e titubeou um pouco, antes de responder. Era a primeira vez, acho, que via o Mike assim, sem saber muito bem o que dizer. Mas, começou:

- Olha, eu me assusto às vezes com os estampidos que ouço de madrugada. Tenho medo de sombras que passam por trás de mim ou do grito do gavião que, de vez em quando, frequenta essas redondezas. Tive um treco, uma vez, você se lembra, fiquei uns tempos meio grogue, meio esquecido...

O Mike estava se referindo ao derrame que ele sofreu uns anos atrás, do qual já falei aqui. Enquanto isso, me enrolava num discurso meio estranho, não muito comum. Mas, continuei ouvindo, atento:

- ... acho que quase morri, não? – Acenei com a cabeça. – Foi o que mais perto cheguei àquilo que vocês, humanos, chamam de morte.
- Não entendi, você não tem certeza de que esteve para morrer?
- Aí é que está o problema: não sei exatamente o que é morte, o que é morrer. Nós, animais, e mesmo os grandes símios, os chamados primatas não humanos...
- Como assim, primatas não humanos? – interrompi, intrigado com essa expressão.
- Primatas são todos os grandes símios, você não sabe? Os orangotangos, os bonobos, os gorilas, o chimpanzés... e o homem, claro. Não são macacos, como nós, menores e um pouco mais distantes no parentesco com vocês, entendeu?
- Não muito, mas isso não importa agora. Eu quero saber...
- Sim, eu sei, você quer saber o que eu penso dessa coisa com que vocês, humanos, vivem se preocupando o tempo todo, a tal morte.

Acenei com a cabeça, já um pouco impaciente. Mas, com o Mike é assim: às vezes, ele desanda a falar e, às vezes, ele se enrola um pouco.

- Bem... vamos tentar entender o que é isso, morte. Para nós, animais, não existe o conceito morte, não nos preocupamos com ela, porque o tempo todo nós nos preocupamos em viver, ou sobreviver, continuar comendo, procriando, caçando, fazendo o que fazemos no dia a dia. Temos medo, sim, de sermos atacados, de virarmos comida de outros mais fortes, mas esse medo é atávico, ou seja, é parte de nossa natureza, é só um jeito de estarmos sempre alerta, de não sermos surpreendidos, não uma preocupação filosófica. Na verdade, não temos o conceito do que vocês chamam de “morte”, porque isso é tão... como direi... tão absolutamente parte da vida que, se ficássemos pensando nisso, não viveríamos, ou seja, teríamos, acho, extraída de nossas vidas um pedaço.
- Então, vocês não se preocupam com a morte...
- Não, absolutamente não. Não existe essa preocupação no reino animal. Existe, é claro, o medo, como já lhe falei, mas não há o medo da morte, no sentido de que vocês, humanos, lhe atribuem, como se fosse algo com que devêssemos nos preocupar. Há simplesmente a vida e somente a vida. Porque, se fôssemos ficar pensando em morte... por exemplo, o leão não caçaria e a corça só viveria para escapar do leão e, então, não haveria a natureza. É claro que a corça não quer virar comida, mas não porque ela tema morrer, mas porque ela quer continuar a viver...
- Querer continuar a viver não é temer a morte?
- Não. A coisa é complicada de explicar, mas é mais ou menos assim: viver é o que importa, morrer é só morrer e ficar pensando na morte não é viver.

Confesso que fiquei realmente confuso com as palavras do Mike. Tentei arrancar-lhe mais alguma coisa, mas ele dispensou o tema da forma mais simples e sincera que ele achou sem que fosse mal educado:

- Olha, na verdade, não é um assunto sobre o qual se deva falar, porque não tem nenhum interesse. Não entendo por que vocês, seres humanos, gastam tanta saliva, tanto papel, tanto trololó com isso. Vão viver suas vidas e esqueçam a morte, assim viverão melhor.

Acabou de comer o pedaço de banana, deu uma coçadinha nas costas e foi dormir. Fiquei ali, contemplando a noite, as estrelas, como sempre faço depois desses papos estranhos com o Mike. Porque, como já notaram os que visitam essas páginas, nossas conversas são sempre à noite, quando o silêncio da cidade é quebrado de longe em longe por alguns estampidos ou freadas de carro, ruídos distantes que o Mike odeia, porque o deixam, com certeza, com aquele medo atávico de que ele falou. Enfim, melhor deixar pra lá essa história de morte, de ficar pensando na morte. E simplesmente viver a vida. Porque isso é o mais simples que se pode fazer.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

SANTO DAIME?


(Adedos - Alaor)





O tempo abrira. Depois da chuva, a noite parecia mais bonita, o quarto crescente até dava o ar da graça e o ar molhado diminuía o desconforto do calor. Saí para respirar um pouco e dei com o Mike me olhando.


- Ficou assustado com a chuva? – Perguntei, irônico.

- Macacos não gostam de trovões. – Ele me respondeu, sério.

- É, sua cara não está nada boa. Vai dormir, Mike, que eu também vou.

- Estou sem sono... Você pode me explicar o que houve com o tal desenhista, o Glauco, eu não entendi direito a notícia...

- Ele foi assassinado, ele e o filho, por um jovem que invadiu sua casa... Parece que o cara estava em surto psicótico... tomava drogas... e um tal de Santo Daime...

- Ayahuasca: eu conheço essa planta.

- Puxa! Você conhece? Como? – Estava estupefato, com a revelação.

- Coisas de macaco... não interessa como. Só queria comentar algumas coisas. E acho que você pode não gostar, sei lá... não são coisas muito convenientes para os homens...

- Ora, Mike, você me conhece há mais de vinte anos e sabe que não tenho nenhum tipo de pré-julgamento de qualquer coisa, principalmente em relação às suas idéias...

- Está bem, então é melhor você sentar e ouvir, sem me interromper.

Puxei uma cadeira, que está sempre por ali, na lavanderia, e propus-me a ouvir. Mike, antes de começar a falar, pegou ainda um pedaço de banana já descascada e comeu um pouco. Seus olhinhos brilhavam e eu sabia muito bem a que isso podia nos levar.

- Bem – começou ele – você sabe que condeno todo tipo de religião. Mas condeno principalmente as religiões, seitas, filosofias ou que nomes vocês, humanos, dêem a organizações que, além do culto a uma divindade, ainda criam um monte de regras que interferem diretamente no dia a dia de vocês. Acredito que essas regras são formas de dominação de mentes, para que os seguidores não abandonem a seita, não abandonem o rebanho. Porque, quanto maior o rebanho de crentes, maior o poder ou maior a riqueza que os padres, bispos, gurus, papas, aiatolás, rabinos ou quantos nomes se apresentem os donos da verdade dessas seitas ou religiões obtêm. Muitos querem mesmo só dinheiro e o poder que o dinheiro lhes dá. Outros querem apenas o poder. Ou o poder sobre as pessoas ou o poder de salvar vidas que, eles acreditam (e são uns pobres de espírito), podem lhes assegurar algum tipo de recompensa diante de seu deus. Mas, no fundo, tudo é ganância, é desejo de poder, é desejo de manter sob sua tutela um rebanho de idiotas, de mentes obscurecidas pela fé que eles lhes incutem.

Mike respirou um pouco, comeu mais um pedaço da banana, e continuou.

- Marx disse ou disseram por ele que a religião é o ópio do povo. Mas a religião é muito mais: além de ópio, é controle, como eu disse agora há pouco. O crente de todas as religiões (e não há exceção nessa regra: pode haver mais ou menos controle, mas ele sempre existe) tem seu comportamento moldado pelas normas da religião e é marcado com alguns signos de reconhecimento como forma de autoproteção dos membros e como forma de ostentação de uma espécie de orgulho. Ou seja: eu ajo assim, porque sigo tal religião ou seita, e quero reconhecer meus pares na sociedade tanto quanto quero ser reconhecido. E, ao explicitar meu código, eu quero também que outras pessoas me vejam como exemplo e se tornem alvo de meu aliciamento. Porque quanto mais crentes tiver a tal organização, mais poder terão seus chefes, e isso também eu já disse e estou repetindo porque é muito importante que você compreenda esse conceito.

E o Mike fez uma nova pausa. Não queria interrompê-lo, mas não resisti.

- Tudo bem, Mike. O seu discurso até agora tem sentido e eu concordo com ele. Mas o que tem tudo isso com a morte do tal desenhista, humorista e caricaturista, o tal do Glauco? Esse assassinato foi muito lamentado por todos, inclusive por mim...

- Pois é: a isso eu quero chegar. Esse Glauco não era um dos líderes de uma seita ligada à ayahuasca? Ao tal do Santo Daime? Esse Santo Daime nada mais é do que um chá de ervas da floresta, um chá poderoso e alucinógeno. Os índios da Amazônia já o conheciam há séculos e dele faziam uso em suas cerimônias.

- Você não está querendo dizer que...

- Não, eu não quero tirar conclusões. Apenas fazer uma ilação que pode, inclusive, estar errada. Mas foi uma coisa que me passou aqui pela minha cabeça...

- Está bem, vamos lá. O que você fez de ilação da ayahuasca e o assassínio do Glauco?

- Você sabe que qualquer coisa que comemos ou bebemos tem efeito em nosso organismo. Tem gente que come um camarão e quase morre, porque tem algum tipo de alergia ao camarão. Então, nós consumimos somente aquilo que tem efeito positivo. Uma aspirina pode curar uma dor de cabeça de alguém e pode levar à morte outra pessoa. Então, voltando à ayahuasca: é um chá alucinógeno. Que pode ter efeitos completamente diferentes em muitas pessoas. O rapaz que matou o humorista frequentou a seita da qual ele era um dos líderes. E, segundo a família, não sei se é verdade, ele consumia diariamente o chá. Além disso, tinha problemas psiquiátricos e era usuário de drogas. Você não acha que é um coquetel potencialmente perigoso para uma pessoa só?

- É, acho que sim, se tudo isso for verdade...

- Eu lhe disse: é só uma suposição. Mas me parece que há uma ligação entre o surto desse rapaz e o consumo da ayahuasca.

- Mas o governo liberou essa droga para uso religioso...

- Sim, liberou mas fez algumas recomendações bem claras. E uma dessas recomendações é que esse chá não pode de forma alguma ser administrado a pessoas usuárias de drogas e a pessoas que tenham problemas psíquicos, o que era o caso do rapaz assassino. Ora, se ele tomava todos os dias a ayahuasca, é preciso, primeiro confirmar essa informação e, segundo, investigar de onde procedia o chá que ele dizia tomar...

- Você tem razão, Mike, embora lamentando a morte de uma pessoa que era, vamos dizer, “do bem”, podemos concluir...

- ... que ele pode ter sido vítima de suas próprias crenças, de sua seita, mesmo que não seja ele a pessoa que fornecia ao assassino a droga que lhe provocou um surto psicótico. Essa seita do Santo Daime trabalha num nível de cobrança e controle de seus seguidores muito perigoso, porque seu principal meio de interação com a divindade é uma alucinógeno. Enfim, talvez eu esteja totalmente errado nessas ilações, mas pode haver muito caroço nesse angu. E mesmo que eu esteja errado, tudo o que lhe disse agora há pouco sobre as religiões continua sendo verdade, pelo menos para mim.

- Eu concordo com você, Mike, meu caro macaquinho ateu...

- Como todos os macacos... como todos os bichos, aliás. Bem, vou dormir que esse papo já me cansou. Até amanhã.

E Mike me virou as costas e foi dormir. Fiquei ainda um pouco por ali, a pensar em tudo o que ele me disse. E concluí que o homem é mesmo um ser complicado, cheio de defeitos, ainda preso a tantas metafísicas impossíveis, a tantas crenças absurdas, que não se pode dizer quantos milhares de anos ainda ele há de evoluir, para deixar de ser bárbaro. Para deixar de matar uns aos outros.